SOBRE BANDONÉONS E OUTRAS ALEGRIAS
O destino quis que algo em minha trilha fosse igual a um Bandonéon. Não sei o que de mágico neste instrumento me cativa. Não sei que sensores operam dentro da caixa de som de meu coração, para que eu me sinta mais leve e musical ao ouvi-lo. Talvez seja a lembrança de uma tia velha que tocava acordeão num alpendre esquecido de um lugarejo chamado Caiana. E todos calavam quando ela tocava sua Asa Branca. Depois cresci ouvindo nas feiras e nos forrós, Nordeste adentro, aquele som mágico. Depois (já adulto), na Europa, nas estações de trens enevoadas, o som das concertinas alemãs, acompanhadas dos violinos ciganos. Mas nada me tocou mais fundo do que os Bandonéons dos tangos argentinos em sua cadência de tristeza leve e sóbria. A música, dizem, é a mais espiritual das artes. O que sei é que os Bandonéons me alçam ao Sublime a cada acorde, me levam a regiões que não sei identificar, mas que devem ficar em algum ponto entre a imaginação e o espírito, onde quer que tudo isso se localize em nós...
Ano passado, visitando um amigo no Nordeste que é dono de um sebo, eis que ele me deu de presente uma sanfona. Como não tinha caixa, levei-a nas costas. Saí dali e fui encontrar outros amigos que não entenderam nada ao me ver chegando com uma sanfona. Trouxe-a comigo para Brasília e, por onde passava, no táxi, no aeroporto e no avião, todos olhavam e falavam dela. Ao chegar na aldeia, procurei o Anderson, um amigo aqui que é professor de música, e ele constatou que a danada da sanfona estava furada e com algumas teclas quebradas. Mesmo assim ainda tirou melodias sem ritmo nela. Se dispôs a me ensinar caso eu comprasse "uma que prestasse", disse, rindo.
O que sei é que hoje bateu uma saudade danada de Buenos Aires e fui olhar os preços dos Bandonéons. Fiquei pensando que havia chegado, finalmente, a hora de aprender a tocar a minha tristeza em algum instrumento musical.
Acho que vou chamar o Sama, que toca Sax, para formarmos um duo desafinado em torno da fogueira de nossas lágrimas!
Escrito por Gustavo de Castro às 22h19
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AMENDOINS NO MEL
O vento saía de suas mãos parecendo passarinhos,
chovia açoites de nuvens, cravejavam-se sonhos
por todas partes, cravejavam-se sonhos
doces de banana e amendoins no mel.
O vento esculpia adornos de manjericão nas orelhas
afugentava os afazeres de antão, sem que houvesse algo a salgar.
Caminhamos então sete noites em alegrias dispersas, flagramos sonhos
por todas as partes, flagramos sonhos
cocadas bananas amendoins e céus
por todas as partes
améns em fins de mel.
Escrito por Gustavo de Castro às 20h04
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ANTONIO PORCHIA EM DEZ FRASES
1.
"Deixar passar o tempo sem opor a ele nenhuma resistência".
2.
"Vivo das concessões que eu mesmo me outorgo".
3.
"Esse 'algo' que necessitamos para poder viver, também necessitamos para poder morrer".
4.
"Tanto não és amado, tanto amas".
5.
"O amor nasce de dois amores e morre em um".
6.
"O homem, quanto maior é a sua obra, menor é o seu acordo com ela".
7.
"Às vezes é necessário fechar os olhos e se deixar levar".
8.
"Em uma só viagem se vive e se morre".
9.
"A primavera do espírito floresce de inverno".
10.
"Rir de não rir, chorar de não chorar: ser de não ser".
Escrito por Gustavo de Castro às 12h07
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PEQUENA CLAREIRA
Alguns amigos me convidaram para ir à floresta ouvir o silêncio, conversar um pouco, bater palmas, fazer fogueira. Por todo o sábado, ficamos lá confraternizando nossas uvas, pães, biscoitos e guaranás. Partilhamos também nossas alegrias e lágrimas, como bons amigos. Houve muita risada, muitos cigarros e alguns charutos. Só o capítulo "charutos" daria uma descrição a parte. Cubanos, baianos, catarinenses, goianos, ingleses. Dois ou três compadres vão de cachimbos. E tudo vai bem... Como era muita gente, foi um fumaceiro só, o que fez por outro lado a floresta mostrar o tempo todo os filamentos de luz entre as folhas das árvores. Tinham filamentos de todos os tipos e granulações. Espirais, retilíneos, granulados, bastonizados e afilados, entre outros que não sei o formato. Só o capítulo filmamentos de luz daria uma descrição a parte.
Decidi então caminhar pela floresta um pouco. Fui até uma pequena clareira. O dia estava frio mas havia sol, um clima de montanha, gostoso até. Deitei-me e adormeci ali mesmo, sobre as folhas secas, na campina. Quando acordei, já havia anoitecido, as estrelas davam suas piscadelas e a Lua me olhava bem no centro da pequena clareira.
Voltei então para perto da fogueira pois havia esfriado muito. Um amigo havia montado um telescópio e ficamos todos a olhar o céu em seu silêncio. Vi nitidamente as cratéras da Lua, seus buracos de bombardeio, sua luz gélida de sol distante, seu corpo marcado e só... Este estado de ninguém da Lua logo me comoveu. Olhei para ela girando satélite, como se fosse aquela história de amor antigo, de alguém que não consegue nunca mais se desligar do amado. Como deve ser feliz a Lua em seu estado de proximidade com a Terra, ali do lado de um planeta azul gigante, cuja terra é molhada de mar, cujo as formigas vivem em guerra!
Visto da lua, o brilho do sol refletido no mar azul da Terra deve fazer sorrir todo o espaço, imagino eu.
Ficamos ali então por toda a noite, todos nós em silêncio, entornados de fogueira, calados de céu distante, sob as árvores na fria floresta.
E tudo foi bem.
Escrito por Gustavo de Castro às 09h38
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