A POESIA COMO SACRÁRIO - PEQUENA HOMENAGEM À CASSIANO NUNES
Nem sempre os poemas acontecem. Todos sabem que eles esperam - muitas vezes - dias, meses, anos para acontecer. Às vezes, os poemas saem rápido, em jacto, noutras, esperam, aguardam, murmuram um silêncio por dia.
Onde encontramos os poemas? De que lugar eles vem? Para onde seguem depois de lidos?
A mesma pergunta vale para os filmes que vemos e os livros que lemos. Hoje, um aluno de cinema, Filipe, defendeu o inacabamento da obra como produto estético.
Não sei. Da minha parte não gostaria de apresentar um poema que considerasse inacabado. Mas existirá poema finalizado? Octávio Paz dizia que não terminamos os poemas, apenas desistimos deles.
Pior do que desistir de um poema é a poesia desistir de nós. Mas, felizmente, a poesia não desiste fácil.
Acho também que alguns homens não desistem da poesia nem quando morrem. Relendo agora os poemas de Cassiano Nunes, sou levado a pensar que ele era assim. Esta semana, dia 15, morreu o velho poeta, aos 84 anos. Vivia solitariamente com os seus livros e cadernos aqui em Brasília. Dizem que estava deprimido, não sei.
A obra poética de Cassiano Nunes fica. Ele é um dos grandes da poesia nacional, tristemente esquecido como quase todos os poetas nacionais. Mas suas palavras ficam. Para terminar, um poema seu, Sacrário.
SACRÁRIO
Cassiano Nunes
Poesia:
aprendizado perene
ou perito artesanato?
Ofício
é o que é:
modesto,
proletário.
Parvos
os que se proclamam
ricos,
vencedores.
Não há vitória
nesta parda rotina,
não obstante
o invisível resplendor.
Conserva, pois, humilde
em eucarístico silêncio,
encerrado no peito,
o deus.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h18
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