ENCONTRO O DIABO NA ESQUINA
Ouvi Miguel dizer que Problema é um amigo. Amigo difícil. Feito de deshoras e ansioso, brigão, enjoado. Quando chega, não quer ir embora. E chega sem avisar. Problema gosta de ser encarado, metido que é a valente. Nós é que não queremos saber de abraça-lo. Alguém aí quer?
Só que não existe, na verdade, quem não o conheça, em maior ou menor grau, todo mundo vai, um dia, sair na porrada com ele. Ou então fazer acordos, partilhar entre-noites um toco de cigarro, chás e ervas-do-diabo.
Não adianta fugir dele. É como fugir do vento. Miguel disse também que Problema, quando aparece, vem trazendo Oportunidade, aquela moça meio-Capitu, desbravadamente discreta e entrona ao mesmo tempo. Oportunidade é a moça mais cortejada do bairro, disse Miguel. Mas poucos fazem por merecer.
Todo mundo só faz reclamar bunda-moles que são!
E tu como lida com Problema? - perguntou Miguel.
Sai de perto de mim se tu não valer o suor de tuas lágrimas!
Escrito por Gustavo de Castro às 13h23
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SOBRE DOR E FRALDAS
Conheci Liana Vanconcelos, poeta e escritora, assim que cheguei em Brasília. Na época, estava dando aula em um cursinho, eram mais de 150 alunos, cada um mais-mais que o outro. Imagine o que significa reunir em uma sala de aula 150 jornalistas e publicitários? Lembro que, na época, era cada um mais ansioso do que o outro, era para o concurso da Câmara dos Deputados e o Senado, em 2003, acho. Mas Liana, não. Ela parecia não estar ali, tinha olhos para outras letras. Quando fala comigo, não era para saber macetes de prova, mas para conversar sobre poesia e literatura. Foi naquele mesmo ano que ouvi as suas primeiras dores e acompanhei o seu pensamento sobre a nova literatura brasileira, os novos escritores, o mercado editorial. Liana fez um belo trabalho de mestrado, na UnB, sobre o Marcelino Freire e a sua trupe. Os novos marginais. Diga-se: marginais publicados por grandes editoras. De fato, marginais não tão marginais assim. Mas isso é outra história. Liana continua publicando as suas dores no seu blog de escritos, pensamentos e divulgação literária, que ora compartilho com vocês. A Liana é mãe do Bernardo, que tem um ano.
E a blogueira poetiza sua realidade por Liana Vasconcelos
Amarga. A fralda. E ri, sentada, sem graça, a poeta. Bala sugar free. Nada ingere, além de morte e, no extremo, ama. Ama, ama. (fralda) Se falam espíritos, ela escuta, amedrontada. Não cruza, sequer, o caminho para o toalete. A bexiga pode esperar. O coração, nem tanto. (fralda) Confusa recusa a verdade. Acusa, chora. Foge: barcos vikings, Colômbia, babalaôs, gargalhadas-suspiros-cheiros-de-nuvem, friends, tupinambás. (fralda) Pura. E volta, triste, dura e acuada. Vida de açúcar. Jejum indeciso. Vazia repousa, sozinha. Ama e troca fraldas.
(www.setorliterariosul.blogspot.com)
Escrito por Gustavo de Castro às 14h56
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