O CORAÇÃO É UMA EMENDA
O coração é a longa emenda
de um texto que ninguém conhece,
cujo sentido a semântica ignora
e cujo os signos ninguém codificou.
Mas se o coração não emendasse esse texto
como um cego corrigindo o abismo,
a vida cairia em pedaços
como um sonho que sobra, despejável.
Até caberia suspeitar
que a emenda é esse texto.
Juarroz, R. Decimocuarta Poesia Vertical. Poema 97, Buenos Aires: Emecé, 1997.
A MEMÓRIA TAMBÉM É UMA EMENDA
Sim, o coração é uma emenda, mas a memória também.
Andando no ônibus, ouvi alguém contar uma história que o meu pai também falava. Era a história da baleia que engolia o pescador. Só que meu pai contava essa história com as sofisticações da mentira. Do tipo: "Eu estava lá" ou "Sim, eu conheci o pescador que foi engolido pela baleia. Quando capturaram o enorme mamífero, escontraram o pescador lá dentro a jogar Tarô".
Meu pai contava histórias misturando mentiras e invenções que, sinceramente, não sei de onde tirava.
O engraçado é que ele só fazia isto socialmente. Nunca mentiu profissionalmente para nós dentro de casa. Dentro de casa, era sisudo e fechado. Quase não dava palavra. Mas na rua, não. Era o mentiroso do bairro, o mentiroso público e aclamado pelos amigos do dominó. Acho que meu pai até se orgulhava um pouco de contar mentiras melhor do que os outros. Era realmente difícil concorrer com ele. Quando ele chegava nos lugares, perguntavam logo a "nova mentira". e meu pai, sacava não sei de onde a sua nova invenção: os maiores absurdos e rumores, tudo era motivo de narração para ele.
Hoje sei que me tornei escritor também por conta dele. Devido a essas mentiras. Elas foram as fábulas da minha infância.
Disse que meu pai nunca mentia para nós, dentro de casa, mas isso é mentira. Ele mentia sim, mas pouco, muito pouco. Costuma contar sempre a mesma, mas, para mim, muito marcante: dizia que já tinha visto todos os filmes feitos pelo cinema mundial. E que sabia contar melhor todas as histórias do cinema americano. Na verdade, Hollywwod tinha descoberto ele na sua cidade natal, Pureza, no agreste do RN, e levado para os "esteites", a fim de que pudessem gravar todas as suas lorotas. Dizia que todos aqueles filmes - filmes que eu e meus irmãos víamos na TV, nas sessões da tarde e da noite - eram versões adaptadas/pioradas de suas histórias reais e iluminadas.
Como nas praças, com os amigos do dominó, nós lá em casa ficávamos todos as rir de tanta inutilidade.
para João, meu pai, morto em 2006, que compreendeu a importância de dizer besteiras na vida.
Escrito por Gustavo de Castro às 14h25
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ESPUMAS DE SER E CISCOS DE TEMPO
Normalmente, o que é essencial é frágil? Ou será o essencial somente o que é forte? Mas que sabemos nós do essencial?
Aquele que canta ao abismo vive de espumas, sopros e ciscos: já nada o apraz que não venha como sinônimo de vida verdadeira. Se "o essencial é invisível aos olhos", ele não é - em tempo algum - ao coração.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h11
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