UM RAIO NA TEMPESTADE
O Cavaleiro de Atenas, sangrado de vida, lanceiro de tempos remotos e duradouros, ergueu sua lança à tempestade, fez estripulias, saltou raios, golpeou falanges, brincando entre nuvens. Pois que digo a vosotros: um raio o atingiu por inteiro enquanto dizia a palavra "Eixu..."
O Cavaleiro de Atenas desdentão se acercou de silêncios e de vergonhas.
AVE-MARIA
Nossa Senhora
Grávida
Anunciou:
"Eu tenho a Força!"
FILOSOFIA DO MILHO
Com quantos grãos se faz uma canjica?
Escrito por Gustavo de Castro às 17h57
[]
[envie esta mensagem]

A PEQUENA REVOLUÇÃO DE JACQUES PRÉVERT
De JOSÉ PAULO PAES
[Epigrama, 1958 IN: Poesia Completa. SP: Cia das Letras, 2008]
Há um poeta imóvel
No meio da rua.
Não é anjo bobo
Que viva de brisa,
Nem canibal
Que coma carne crua.
Não vende gravatas,
Não prega sermão,
Não teme o inferno,
Não reclama o céu.
É um poeta apenas,
Sob seu chapéu.
À sua volta, o trânsito
Escorre, raivoso,
E o semáforo muda,
Célere, os sinais.
Mas o poeta não sai
De seu lugar. Jamais.
Diz um padre: - “É pecador.
Blasfemou, praticou
Fornicação, assalto.
Por castigo ficou
Atado ao asfalto.”
Diz um rico: - “É anarquista,
Que mastiga pólvora,
Que bebe cerveja.
E espera a explosão
Da bomba sob a igreja.”
Diz um soldado”- É agente
De potência estrangeira.
Aguarda seus cúmplices,
Ocultos em algum
Lugar desta ladeira.”
Diz um doutor: - “É vítima
De mal perigoso.
Está paralítico,
Ou talvez nefrítico,
Ou então leproso.”
Ante notícias
Tão contraditórias,
Há queda na bolsa,
Pâncio na Sé,
Cai o Ministério,
E foge o doutor,
O padre, o soldado,
O rico, o ministro,
O governador.
Sem donos, o povo
Livra-se de impostos;
Sem padres, o povo
Livra-se da missa;
Sem doutores, o povo
Livra-se da morte;
As ruas se animam
De vozes, de cores,
De passos, pregões,
Abraços, canções.
E, no meio da rua,
Sob seu chapéu,
Sob o azul do céu,
O poeta sorri,
Completo,
Feliz.
Escrito por Gustavo de Castro às 08h01
[]
[envie esta mensagem]

CONFIANTE, PODES
(Releitura do poema "Confiante, podes", de Paul Celan (In: Mudança de Ar, 1967, Trad. Claudia Cavalcanti).
Confiante, podes acolher o silêncio, a mão de neve dos finais de ano. Confiante, podes - ombro a ombro com o silêncio -, atravessar o gelo e o falatório. Confiante, podes gritar tua mais jovem solidão e nenhuma palavra será ainda necessária.
Confiante, sabes que palavra alguma merece confiança.
Alguns silêncios também não.
Escrito por Gustavo de Castro às 07h54
[]
[envie esta mensagem]

|