Fragmentos de Malassombro - a praia das mortes

As cartas náuticas dizem que a Ponta do Flamengo é o terceiro ponto das américas mais próximo da África.
Tomei coragem e, num pequeno bote a remo, fui circundar o estreito, pelo mar. Não dá para falar da Ponta do Flamengo sem falar da baía de Cotovelo e das falésias do lugar. Visto do mar, falésias e rochas, arrecifes e maceiós assustam. O mar e a baía são traçoeiros como as histórias do lugar. Todos os grandes navios que arriscaram este pedaço de mar, conheceram o naufrágio.
Contam que, nos primeiros contatos dos indígenas nestas praias com os navegadores vindos de outras terras, os índios locais adotavam a mesma postura. De início, no primeiro contato, eram simpáticos, sorridentes e amistosos. À noite, em pequenas canoas, queimavam ou afundavam as naus. Megulhadores já falavam da visagem de quarenta carcaças.
Os índios locais eram generosos na maldade. Saqueavam e matavam a todos. Por aqui não se conhecia a prática do prisioneiro. Um dos relatos dá conta de uma árvore imensa, localizada exatamente no que é hoje a Ponta do Flamengo, de onde se teve, certa vez, a mais macabra das visões. Séculos atrás, num desses combates, e após matar todos os marinheiros e viajantes do galeão, os índios dependuraram os corpos nesta imensa árvore.
Como se fossem frutos.
Os mortos cuidadosamente pendurados na árvore como se fossem frutos da morte. Desde então, os últimos videntes chamam esta praia de Praia das Mortes. Hoje todos chamam de Ponta do Flamengo porque não é nada publicitário, nem ajuda na divulgação do turismo local. Que prolifera, diga-se.
A imagem da árvore com os corpos pendurados no alto desta falésia vem sempre à minha imaginação, todas às vezes que navego por aqui. Imagino que a cena era também um aviso - outdoor - para outros navegadores. Quem iria arriscar?
Devo confessar que há algo de macabro nesta região de mar. Mesmo em pleno dia, com o Sol a toda. Vemos aqui a praia das mortes, um pouco de braçadas a frente entramos na baía de Cotovelo; acolá a Barreira do Inferno. Quem iria arriscar?
Escrito por Gustavo de Castro às 01h01
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