EUTERPE
"Que as pontes consigam dar sentido aos bréus", cantou a filha de Euterpe, repetindo: "que as pontes consigam dar sentido aos bréus".
PASSEIO VESPERTINO
Passeio pela cidade ao crepúsculo: vejo dois doidos no trânsito: um finge que é guarda e orienta os carros com sua flanela amarela; o outro faz aeróbica entre os automóveis. Depois, um figo caí, um pássaro cála e a noite chega engolindo tudo com sua boca de nêgo.
CANTO À BOB DYLAN
Não encontro, Bob, mar à tua gaita.
Encontro sertão na frente da praia.
Encontro casa vazia, lua de taipa.
SOLIDÃO
Comamos Solidão, comamos! Por frente e por trás! E quando for a hora de solidão gritar, grite junto.
REPÚBLICA DOS POETAS
Fundemos a República do Poetas! E que possamos comer bananas e tomar cachaça e rum! e que possamos acreditar nos deuses que quisermos! e que a política seja entregue aos feiticeiros e anciãos! e que não haja assembléia de poetas porque ela não servirá para nada.
Escrito por Gustavo de Castro às 10h30
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MANOEL DE BARROS:
Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito porque gostava de carregar água na peneira Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura. A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos
Escrito por Gustavo de Castro às 15h19
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ANGÚSTIAZUL
A dor no peito não é implante de ácido. A dor é angustia humanizante que os tolos rejeitam, mas os Transparentes, não. Amigos invisíveis cantam tan tan tan com foles de fogo e vento e suas línguas cospem flores de espinhos azuis.
HOMEM-COBRA
Dois são os modos de ser da língua: dentro da boca calada e solta no mundo. Quando solta no mundo tem a ponta bifurcada.
A FLOR VERDE
A pureza é o olho azul do coração.
Depois de muito procurar, conheci alguém que era puro de coração. Mas o seu olho era verde.
VISCONDE PARTIDO AO MEIO
O incompleto aspira com algo que ele possa arredondar. Mas as suas mãos quebradas não finalizam nada; nem mesmo o círculo ele fecha. O incompleto não passa de uma linha reta sem infinito.
EM 2007
Todos os campos estão por arar. Mas o altar dilacerante das horas; a impiedade no berro das horas pode pôr a perder o fulgor das hortênsias. Para que não se perca a flor, fotografar o instante em grandangular.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h08
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CANTO RESMUNGADO DIANTE O MAR
eia, eia o ser, ser, eia, sereia, minha mãe iemanjá.
MANOEL DE BARROS
"A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta. Vai carregar água na peneira a vida toda".
DUNAR
No parque das dunas cresce um bosque de árvores namoradas.
OS TRANSPARENTES
E o Senhor da Transparência disse: Eu vos oferto em graça Espírito e Conhecimento. Tomai e comei todos vós que isto é o meu corpo e sangue que é dado a vós.
SERTÃO
Passar a vida pensando o sol. E à noite, pensar a lua. Mas sobretudo o sol que há na lua.
MOBY Olhando a praia vejo Moby Dick pular entre uma onda e outra e dizer: "Cinge teu quadril para que sambes como o mar". Preferi então cingir o corpo por inteiro.
ABERTO À CLARIDADE DA NOITE Aprender a olhar novamente as árvores baixas, o morro quente, o debulhar de milho, o sol com o dedo em riste! Aprender olhar novamente o assoalho do invisível, a lareira da solidão, o barato do amor e o caro da vida! Aprender a olhar novamente a falange dos dedos, o sentido das rugas, o movimento do coração! Aprender a olhar novamente deuses formas homens e a natureza de si próprio! E por fim, aprender a olhar novamente a morte como quem aprende a nascer.
SONHO Sonhei que maquiava N. Senhora, a mãe de Cristo. Passava baton, rouge, pintava seus olhos com lápis. "Devo ficar bem bonita, disse, porque vou à festa de N. Senhora da Apresentação".
Escrito por Gustavo de Castro às 11h25
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NA PADARIA
de pouco em pouco
de grão em grão
a galinha enche o pão
MÍSTICA
A mística íntima das coisas. Não uma divindidade em todas as coisas mas almas em todas elas.
Para cada coisa no mundo, façamos o sinal da cruz.
AZUL SUBLIME AZUL CONFUSO
Vejo o invisível de cada coisa. E em tudo o que vejo não vejo nada a não ser uma falação danada de Azuis.
SENSU COMUM
Criticar é fácil quando não se conhece o assunto. Quando muito se conhece, melhor é ficar calado.
AOS QUE NÃO VÊEM TV
Parabéns. Uma droga a menos.
MÍDIA MÓVEL
Como é que os publicitários ainda não criaram a campanha do motel móvel?
O QUE É QUE HÁ?
Dizem que acasos não existem. Coincidências também não. Concomitâncias é que sim. Acho que tudo no mundo tem certa magia de verbos pelo ar... Mas quem provará a existência do ar senão a música, a mais espiritual das artes?
FOTOGRAFIA
A foto na parede me olha como se achasse alguma coisa.
A foto na parede me olha como se olhasse alguma coisa.
Escrito por Gustavo de Castro às 09h42
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PARA HERÁCLITO
Quando se quer ser feliz, dois ou três objetivos bastam. Contanto que eles sejam inalcançáveis.
CIDADE ÍNTIMA
A natureza do povo daqui é agoniada.
LUZ MÍNIMA
Saudades de um caandeeiro. Sei que a palavra está escrita errada, mas prefiro assim, porque a sinto assim: caandeeiro. Saudades de um caandeeiro amarrado no teto de uma casa de taipa, no sovaco de uma serra, no sertão. Caandeeiro no sertão: existência vagalume.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h57
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NOITE DA NATAL
Ouvimos sinos por toda a cidade. Homens na grande praça ajoelham, benzem-se, voltam os olhos para cima. Dobram incessantemente os sinos no bairro velho. Da sacada, a velha festa tantas vezes triste, reza uma falsa alegria. Noel e Natal: dois paspalhões vestidos de felicidade.
BEETHOVEN, O FILME
O segredo de Beethoven: o silêncio é a música que Deus canta para nós. A certa altura, o maestro diz: "a solidão é a minha religião."
NA FEIRA
Ouvi certa vez, numa feira, um velho cego tocando uma rabeca blues. Alguns batiam palmas, quando comecei a dançar sozinho no meio do povo. Parecíamos até uma dupla ganhando dinheiro juntos. Depois o velho me contou sua história. Um caminhante, um anônimo de feira em feira pelo Nordeste do Brasil. Sabia o dia de todas elas:Garanhuns, Santana, Cajazeiras, Caicó. Soube agora que o velho havia morrido. Sua rabeca vendida na feira de Bodocó.
ANTONIO PORCHIA
"Sim, eu devo perter-te, mas tu...Oh, não te percas!"
Escrito por Gustavo de Castro às 16h11
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ALECRIM
O cheiro dos tempos mortos no portão. As fragrâncias que temperam a tristeza, a boca e o coração estão por todas as partes: no café quentinho, na tapioca saindo do fogo, no bolo de milho, no pão assado... Na velha insana na cadeira de balanço, na velha casa onde tanta gente morreu... O silêncio inconfundível da agonia. Na frente morava um padre; do lado direito, as freiras; do lado esquerdo, o cemitério e a igreja. Crescer cercado de Jesus e agonias por todos os lados. No coração do poeta, os infernos se multiplicam.
ANTONIO PORCHIA
"O amor quando cabe em uma flor é infinito"
EMANUEL
As asas semeadas em teus olhos calmos me abraçam em vôo e me trazem com segurança ao chão. Tu és como aquela vez em que caí do telhado. Transformastes teu corpo em mil andorinhas. Agarrastes minhas vestes e me pousastes num lençol de palha, e ali adormeci um sono antigo. E o nosso amor nunca mais deixou de ser ditoso.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h56
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