ANTONIO PORCHIA
"Para livrar-me do que vivo, vivo".
NOITE
A solidão do caminhão de lixo, quem quer acompanhar?
NOITE II
O cacau selvagem perfuma a noite. Ouvis as serrilhas das folhas de mântua? Ouvis o sumo do cheiro das estrelas?
NOITE III
Com as serrilhas da pétala, cortas a palavra Amor em duas. Num pedaço, caí o poço; noutro, a solidão. Um pedaço é cego, outro desesperação.
(Dizem ser o Amor o açougueiro do coração.)
FLORES AOS PORCOS
Jogar pétalas amarelas na face dos imbecis?
BEIJO ENTRE BANGUELAS
A suprema liberdade da língua!
ANTONIO PORCHIA
"Quem faz um paraíso de seu pão, de sua fome faz um inferno."
LIÇÃO DE CASA
Estar na sombra com pés encharcados de nuvens.
Metade de um charuto toscano confere guarida.
Beber sobejos de homens santos.
Lamber venenos azuis.
LIÇÃO DE CASA II
Cobri teu corpo com almas maturadas no umbu com mel. O gozo da aurora gera um sol alto, verde, repleto de vontades claras. Tricocheteas ensolações de amor. Costuras com carmim, bocas, beijos, o sangue vegetal. Vai homem, vai ao Alabama da Alma montado no Pégasus do Amor!
Escrito por Gustavo de Castro às 11h00
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SOL COM CHUVA
Ver um velho de boca aberta andando na rua, acalma.
AMOR
Quem ama de verdade
alguém
que se cuide!
DRUMMOND
"Ó canhestras e vagas croniquetas, quem vos salvou da poeira das gazetas?"
EIXO L
Do teu lado tem um largo compasso de lago artificial.
COMO SABER?
Nos teus calados planos
andas braços dados
com os enganos?
ANTONIO PORCHIA
Uma estrela cabe em minhas mãos, porque cabe em minhas mãos sua distância.
CIDADE DAS ÁRVORES
No reino de Arvorescendo, toma-se sete copos de alegria ao acordar, misturados com nescau de angústia leve, todo dia. Ali, os homens têm cabelos verdes, mãos com cascas e narinas de onde caem pétalas azuis, amarelo-magenta. A rainha-mãe está sempre deitada, de pernas abertas, espirrando chuva de pólens e lumens de luas crescentes. Estrangeiros vindos das cidades de pedra, lá, onde os homens dizem que o coração não pensa, adventem que no reino de Arvorescendo tudo frutificou. Para ser cidadão de Arvorescendo, exige-se tutuar na pele um arvorescer.
NA PRAÇA
Jogar dominó
para aprender
a desvirar pedras.
O QUE PREFERES?
Viver na Ilha da Fantasia ou no Continente das Certezas?
SEM VINHO
1.
Na economia das almas teus lucros não rendem assombração.
2.
Alguns homens deveriam ter nascido urubus.
3.
Alguém quer trocar aí sua fortuna por uma pedra azul marinho?
4.
Se Nietzsche tivesse nascido no Brasil, o niilismo seria um bigode
oxigenado.
5.
Na rua, uma aglomeração. Todos olham para a boca aberta do sujeito. Ele aponta com o dedo indicador para um dente e os outros, todos, olham. Pergunto a alguém o que está ocorrendo, e ele diz: "ele tá dizendo que na cárie dele tá nascendo uma muda de alfazema". Ninguém, claro, acreditou no homem, coitado. Se fosse ao menos um muda de agrião...
6.
Cada homem cala a seu modo. Conheço um que cala igual a chuva na janela. Conheço outro que cala na segunda-feira a semana inteira. Tem um velho lá na Aldeia que, quando cala, dizem, melhora o silêncio.
PARA OPHELIA & FERNANDO PESSOA
Nos flancos das olméias de antão, entre palmas, carvalhos e pinhões, morava Ophelia, a primeira-dama das letras portuguesas. Na sua biblioteca íntima, ela tentava melhorar Pessoa. No fundo, o seu sonho, canto mudo de grandeza, era esquecer a magia do não-amor, dito por Pessoa assim:
"fiquemos um perante o outro / como dois conhecidos desde a infância / que se amaram um pouco quando meninos / embora na vida adulta sigam outras afeições. / Conservado, no escaninho da alma, / a memória de seu amor antigo e inútil."
Escrito por Gustavo de Castro às 11h31
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