CARNAVAL DE SILÊNCIOS
Uma fila de formigas é o meu bloco de carnaval.
MUTO
Não estranho o silêncio. Estranho a palavra.
Na sua boca, tem muitas coisas ditas.
MUTO II
Sem açucar, tomar um limão com hortelã de silêncios. Fazer careta de palavras.
DRUMMONIANA
Os cacos de corações colados formam um estranho amor.
RELIGIÃO DOS PÉS DESCALÇOS
Alguns pés avançam no horizonte não desprovidos de penas. Eles choram, os pés. E quando voam, erguem altares nas nuvens, tocam berimbauns e dançam na poeira nos céus.
ANTONIO PORCHIA
"A dor não nos segue: caminha adiante".
COISA POUCA
Teu mínimo vital é uma montanha de vitrais? Gostas do pouco? Prepara-te então para o nada.
FRASE DE CAMISETA NA RUA
"Paz ao Iraque!"
GATO PRETO
Um gato preto se esfrega nas canelas da solidão. Mira com desdém as flanelas dos olhos da Bruxa e tudo n'atmosfera rrepia. Sienlua.
O HOMEM
Como numa noite de bestas e uivos, o homem é a árvore onde mijam bêbados diabos ruivos.
O AMOR
O amor é um sapato
que nunca se ajusta
a nós. Com ele,
não sabemos caminhar.
TEMPO DE VIDRO
A transparência profunda das emoções, a justa medida do amor a si mesmo. "Por que se eu não me amo, quem me amará?", diz o verbo na praça popular.
Leiam o "Tempo de Vidro", do poeta Samarone Lima: www.quemerospoemas.blogspot.com
NA PADARIA
- E aí, João, tás crescendo?
- Tô, pros lado e pras cima
CRENÇA
Acredito nos pés que dançam e nos pés que jogam bola. Acredito nos pés que nadam e nos que sobem em coqueiros. Nossa, como acredito em pés feiticeiros e nos que voam e mergulham de cabeça, sem sapatos, no imenso chulé da vida.
TRANSIGIR
Transigir as línguas até que elas se enlacem como fita carmim.
TRANSCRIÇÃO DE UM DIA
1.
Imagine a emoção de um pneu do carro furado em plena chuva. Como é esta emoção para você? Para mim é sempre má. Mas aí vem a chuva e a chuva sempre me alegra com seu ninar de nuvens. Já vi muita gente blasfemar a chuva em São Paulo. Para mim é sempre benção, mesmo que de pneu furado.
2.
Tentei fazer as pazes com meu carro, pois nunca nos demos muito bem. Todos os carros que possui, fracassei como amigo deles. Sempre gostei mais das bicicletas e dos aviões. Num único dia, o meu possante Ford K (de Kafka, presumo) furou dois pneus. Então achei que havia chegado a hora de discutir a nossa relação. Se sempre fui amigo de cadeiras, livros, canetas, mesas, papéis e pincéis, por que não seria dos carros também? Comecei então passando a mão nele como quem adula e afaga. E como era importante que não houvesse falsidade entre nós, abri o jogo olhando direto nos seus faróis. Pelo que entendi, ele decidiu iniciar uma conversa pacífica, sem trânsito. Entendi-o muito bem. Como ele, também sou amigo dos caminhos.
CENA
Lá vinha um menino caminhando sem camisa, puxando um jumento numa corda pela rua. A corda entre ele e o burro estava frouxa, caída, tranquila. Ambos caminhavam em paz. Sinal de que estavam de acordo.
ALTA LEITURA
São tantas as nuvens no céu que não dá tempo de ler tudo. Elas passam ligeiras pelas páginas azuis, e ficamos sem entender direito o longo texto do alto. Por isso mesmo, nos sentimos meio analfabetos de alturas... Gago de estrelas.
Escrito por Gustavo de Castro às 23h19
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