SILÊNCIO
Reservar uma hora do dia para falar.
Nas outras, falar de boca fechada.
Reservar um instante do dia para calar.
Nos outros, calar de boca fechada.
Reservar uma vida inteira
para aprender a calar por inteiro.
Nas outras, calar as metades.
Escrito por Gustavo de Castro às 09h30
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SANDÁLIAS AZUIS
Encontro a doida na rua andando só de calcinha, a fumar o seu cigarro e a sorrir feliz para os passantes. A doida é gorda e branca e desajeitada em sua pose, quando pára na calçada com seu cigarro free. A doida usa um par de sandálias azuis, um modelo antigo, que lhe cai muito bem. Apesar dos passantes não ligarem muito para as suas sandálias, convenço-me de que o azul corrige às vezes a loucura dos nossos passos.
A CADA CRIANÇA A SUA MONTANHA
Vejo nos jornais em Brasília (25.03.2007) a foto de um menino desaparecido com quem topei e conversei outro dia, no centro de Taguatinga. Marcos Douglas da Silva é o seu nome, de 11 anos. No jornal diz que ele sumiu de vez quando ia pra escola. Mas quando eu o encontrei ele já pedia comida nos lugares. Neste dia, lembro, uma velha também o ajudou com um suco. O que me chamou a atenção nele foram os seus olhos tristes. Olhos que olham trilhos como quem pressente a queda na montanha-russa.
FENG SHUÍNTIMO
Quando vejo faltar a poesia nos rincões dos cantos dos olhos, entendo porque alguns seres não são santos.
CIA
Andar acompanhado de fantasmas é a melhor forma de ser sozinho.
TUDO ISSO ACONTECEU NAS FLORESTAS DA CHINA
O tigre partiu com a morte entre os dentes na direção do monge. Era noite de lua cheia e nevava na hora, quando a fera quinze palmos avançou. O monge quieto desmanchou-se neve. Aguou-se. O tigre em fúria traspassou o vento, desnorteado, girou em volta à cata da comida santa.
Nada mais havia a se comer.
Mais adiante, ergueu-se serenado o monge destornado neve. Desaguado gente, novamente...
O animal garimpou o cheiro... Virou-se.
Fixaram-se nos olhos em silêncios-alvos.
E a fome da fera já não era tanta.
ANTONIO PORCHIA
"Sempre me foi mais fácil amar que elogiar".
Escrito por Gustavo de Castro às 22h16
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VIVER NA POESIA
(para Silvia, que sabe este poema de cór)
Troco cinco poemas por um prato de sopa.
Escrevo versos podres num rolo de papel
desonrado, e jogo fora em serena descarga.
Não tenho honrado muito a velha poesia.
Talvez porque não esteja à altura dela.
Assim, leio poemas dos outros e sinto
como se fossem meus.
Afinal, poesia é poesia.
Não importa quem escreveu.
Começo um verso esperando nunca terminá-lo.
Mas ele quer, quer sair, desbastar, a mim, vir.
Não escrevo para ser poeta.
Escrevo porque não tenho saída.
Ou é isso.
Ou o nada.
E o nada, já tenho o bastante.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h08
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