COM QUANTAS DORES SE FAZ UMA MULHER?
Não sei se vou saber descrever o que vi. É uma cena triste. Amarga. O marido estava abandonando a mulher para ir viver com a outra. A esposa sabia de tudo, mas decidiu não armar nenhum barraco. Aceitou calada, não escondeu a dor que sentia e, agora, perdia o marido de vez. Ela tinha os olhos inchados de lágrimas, um vestido bege-caque roto, e os braços cruzados na altura do peito. Ela estava na calçada, de pés descalços, totalmente desolada, olhando a mala do carro aberta enquanto o homem colocava ali as suas bolsas mal arrumadas. Ele estava frio, duro, e a sua dureza parecia gelo... Ele colocou a última bolsa, deu a volta no carro, dirigindo-se até a porta do motorista, e sem se despedir, nem olhar para trás, entrou no automóvel e partiu, arrancando à toda. Ela continuou ali por alguns minutos, de braços cruzados, com as lágrimas escorrendo, em um silêncio murmurado de agonia. Foi quando a noite ficou ainda mais silenciosa... Soprou um vento frio na hora, que ondulou discretamente o cabelo da moça, não secando, no entanto, as lágrimas que por ali passavam...
ANTONIO PORCHIA
"O belo se acha removendo escombros".
A PIOR DAS DORES
Uma vez vi um psiquiatra dizer que a pior das dores era a do amor. Nenhuma era tão profunda, tão doída e amarga. Que não havia remédio, nem nada que pudesse ser feito para passar. A não ser esperar... Um ditado famoso diz: "Se não se aprende pelo amor, aprende pela dor". Mas quem aprende pelo amor, verdadeiramente, pois, verdadeiramente, quem sabe amar?
Sempre estranhei quem não sabe valorizar aquilo que ama, nem sabe o que ama, nem o que é o amor. Por isso estranho a todos os homens, pois não acredito que ninguém saiba - verdadeiramente - cuidar...
FRASEMENTO DE UM DISCURSO AMOROSO
Tudo o que não é indício de felicidade não é indício de amor.
Escrito por Gustavo de Castro às 22h25
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CANTO A HÖLDERLIN
Quem poderá tirar-me da fronte o sonho triste? Se todos os dias banho-me no rio do esquecimento, se todas as manhãs nutro-me nos seios da Via Láctea e lavo a face na aurora do desassossego, quem poderá conduzir-me ao bosque onde as ervas não são daninhas? Quem poderá tirar-me, ó Filho-do-Monte, a meia-noite do peito? Se visito todas as sombras, se desadormeço todos os nadas, se aguilhoam-me os espinhos, quem, quem dentre os pagãos há de restaurar do pó o meu coração?
CANTO A FERNANDO PESSOA
Sim, também o Nada serve para alguma coisa! Se, numa tarde de domingo, sentado em tua cadeira de mofo-ócio, sobrevém abrupto em teu coração a clara sensação do Nada, toma então ele pela mão, toma, e pergunta sem demora: "para que serve tudo isto, este desterro, para que sirvo eu, impaciente morador desta vida de viço?" E se não encontras resposta, destemido habitua-te aos grilhões: a vida-a-ferros! Tu não podes ainda, ó minha alma, inda não podes, voar...
Escrito por Gustavo de Castro às 12h52
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PARA MANOEL DE BARROS
Há pelo menos dez anos quero ir até Manoel de Barros agradecer pelos seus versos. Invejo e admiro os meus amigos que fizeram isso, como Luíza, de São Paulo, e Paulo Alves, de Brejo Santo, Ceará. Já me programei sete vezes para ir até o Mato Grosso, mas em todas elas senti como se não devesse... Besteira minha, acho. Agora soube que o Manoel perdeu o seu filho, João de Barros, esta semana, num acidente de avião. Quando soube da notícia imaginei logo os olhinhos dele, que já acho tão pirilampos, frágeis e doces, amargurados de dor. Não é fácil perder um filho aos noventa anos, ainda mais para um poeta. Carlos Drummond morreu uma semana depois da filha Julieta. No livro Ensaios Fotográficos (2000), Manoel presta homenagem a alguns de seus antepassados: ao pai, ao avô, ao tio. Em um poema, fala de si mesmo, e diz assim:
"Ao nascer eu não estava acordado de modo que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última."
Temo por ele, sofro calado com ele, esse poço transparente, que tem nos abençoado de águas e silêncios desacordados. Temo porque sei que Manoel "padece de lonjuras", porque sabe que a distância é essa coisa vazia que a gente leva nos olhos e que tem nome de exílio. E mesmo que ele saiba que o exílio-morte não passa de uma cigarra, ainda assim, temo que ele queira ir lá pescá-la, no rio da vida, com seu anzol de menino-livre, atravessado de sol.
O POETA
para Manoel de Barros
as grandezas do ínfimo com que cravas
em nós constelações de belezas-ligas
são tochas levadas por imãs-palavras
tachos repletos de saberes-espigas
as ignoranças tuas são esperanças
as proesias tuas são alegrorias
as luas tuas são cheias e nuas
e todos os teus versos cantam além
a pureza perdida das aves crianças
e fazes olhos sorrisos fragâncias
amores amoras amêndoas améns
Escrito por Gustavo de Castro às 16h08
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