OS OLHOS DE LUZ
O azul nasce de um surto poético de Luz. É quando Luz sente pela primeira vez a si mesma como harmonia e doçura.
Ao olhar a sua criação, os olhos de Luz não podem expressar outra cor. Depois de criado, o azul ganha o ar, vira céu, pousa nas asas da borboleta, vaga pelo espírito da terra ao ponto que, quando o homem olha o planeta alto, diz: “A terra é azul!”. É como um manto a envolver e imiscuir todas as coisas; penetrar vidas adentro, fazer reluzir clarões e traçar sombras.
No azul, flutuam todas as formas geométricas. Em sua fundura, é sempre possível que as existências difíceis encontrem alento para aquietar-se.
O azul é uma possibilidade do aberto e do profundo, algo a almejar, uma busca...
Talvez seja também uma promessa. A de que podemos ser amplos... Mar e céu anunciam-se como abismos, lugares que levam para outro lugar, como se além do azul exista o perigo da noite alta ou a incerteza oceânica da vida. A sua superficialidade não passa de uma aparência. No fundo, o azul tem a cobiça de quem, depois de enfrentar profundidades, sabe que o melhor a mostrar é aquilo que se tem de mais bonito!
Ele exibe singeleza para, em sua imensidão, esconder um pouco as dificuldades, os tormentos e as perturbações daquilo que, por ser vasto, não se conhece bem. É o reconforto necessário, a serenidade entregue àquele que busca a si mesmo.
Ao propor o aberto, o céu também oferece a condição de olhar para todos os lados. É ele que fez sobressair o brilho dos amarelos e acalma os vermelhos apaixonados. É na sua extensão airosa que se ostentam as nuvens brancas, como convites para quem queira ninar-se na brancura de cima.
O azul que nasce de Luz tem em si um princípio de generosidade, mas também uma dificuldade. A de não esconder o espanto causado pela beleza, quase terrificante, que anuncia. É certo que a beleza tem muitas faces também, mas quando se reveste desse espírito de profundidade que é o azul, torna-se força polivalente: simultaneamente calma e desassossegada, harmônica e tensa; quase que dizendo: “se queres a mim, prepara-te para o negro e o branco, o amarelo, o violeta e o vermelho, pois, no fundo, sou os olhos de uma divindade revestida de arco-íris”.
Talvez por isso, a felicidade causada inicialmente pelo azul e sua promessa se transforme tão facilmente em tristeza e melancolia. Do brilho animador dos primeiros instantes aos níveis escuros dos estados parados, tudo depende do arco-íris dos estados-d'alma. O azul é uma escala de espectros. Guarda poderes múltiplos e quietos a serem despertados. É uma poderosa força calma que vive, age e transforma. Descobrimos com o blues que o azul é também amigo do negror dos sentimentos: nina nossos estados com o lamento de seus vários tons: marinho, aéreo, escuro, quase sempre musical.
Entendemos como é possível ser triste sendo alegre. Como se dissesse assim:
Conheço-me tanto, tão profundamente
Me sou em mim meu desencanto
Que sou assim
Simplesmente, blue.
Para estar no azul, é preciso conhecer seus próprios matizes e, entre eles, afinar a escala de si. Dizem que ele é, entre as forças fundamentais, a mais fria de todas. Mas sabemos que não é bem assim. A sua temperatura guarda a sabedoria de olhos iluminados. Os olhos de Luz.
(pensado e escrito com a poeta Florence Dravet)
Escrito por Gustavo de Castro às 11h27
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CUIDA-TE
1.
Por que será que a poesia chama-nos ao cuidado e ao silêncio?
Cada vez mais acredito que poesia e cuidado combinam-se, fazem acordo, penetram-se. Cada vez mais entendo que, para sentir a vida, não precisamos (tanto assim) da palavra. Precisamos apenas da meia-palavra "cuidado". A outra meia-palavra é o amor.
2.
Tem uma coisa que nunca me canso de ver. Olhos tristes. No metrô, fico observando um sujeito que tem o olhar mudo. A sua tristeza é tanta que ele espreme a têz como se quisesse arrancá-la da fronte, para descer na estação seguinte sem ela. "De onde veio essa tua tristeza, homem?" - tenho vontade de perguntar a ele. Mas quem sou eu, que nem sei de onde vieram as minhas?
3.
No mesmo momento, ainda no metrô, uma criança começa a chorar. Parece que a criança chora por nada. Apenas porque a mãe não fez nela certo mimo. O choro da criança aumenta, vira escândalo. A mulher do meu lado diz: "Se fosse minha filha, eu dava logo uma porrada pra deixar de frescura". Bom, ainda bem que não é! - penso eu. Mesmo com o choro, o homem de olhar mudo não muda a expressão. Parece até que o choro da criança aumenta a sua dor. Ela expressa por fora o que ele sente por dentro.
4.
Ao lado, um homem lê um jornal carioca que diz ter sido a terça-feira (17.04) o dia mais violento do ano no Rio de Janeiro. Um dia antes um americano ensandecido havia assassinado 33 numa universidade. Olho em volta. A criança ainda chora, o homem ainda triste, a vida ainda fria... Desço na minha estação e sinto como se tudo estivesse desligado de tudo, como se ninguém prestasse mais atenção em nada.
5.
Cuida-te um pouco, meu amigo. A vida não anda fácil. A estrada segue e a tristeza teima em querer te alcançar. Se ela te alcançar, faz como o gato aleijado aqui de casa, o Rajá: mia o teu olhar mudo em direção a estrela polar. Se não podes mais, como ele, pular, podes ao menos ainda cantar a tua dor aos céus.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h09
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AH...O AMOR, ESSE MAR
ah... o amor, esse mar tão longo
tão largo
tão fundo.
O MAR, A ÁGUIA E O SOL
1.
Há três meses não via o mar. Agora abençoo-me com ele nas enseadas do Rio de Janeiro. Antes, peço a benção na Biblioteca Nacional, a oitava do mundo, dizem. Como sou filho de Yemanjá necessito de mar: mar adentro, mar qualquer, mar-que-seja mar. A energia do Rio de Janeiro é sempre assim: faz o homem desejar ser águia. Ou sol.
2.
Encontro no Rio um velho amigo, um monge, o Luiz Vieira, que mora agora no Convento São Sebastião. Vieira é a pessoa, das que conheço, que tem mais livros e que já leu mais. O homem é de Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba. Vieira também é o homem mais silencioso que conheço. Um místico. Mas quando estamos juntos nossos silêncios se encontram e a conversa flui, sempre. Ele está fazendo doutorado por aqui, estudando Jon Sobrino, um teólogo da libertação ainda vivo que mora em El Salvador e que foi condenado este mês, aliás, pelo bunker alemão, o papa Benedeto XVI. Noto que os olhos de Vieira vivem em câmara lenta, coisa de homens que se dedicam à espiritualidade e à literatura. De forma profunda, esses homens sempre me lembraram as águias. Ou os sóis.
3.
DIZ OCTÁVIO PAZ, no homônimo Águia ou Sol? (1950)
"Merece o que sonhas".
4.
Bom tema inclusive para o amor, a vida e tudo o mais: "merece o que sonhas".
E com o que andas sonhando? Tens recebido o que andas sonhando?
Ou és mais o resultado do sonho dos outros?
5.
ah... o sonho, esse mar tão longo
tão largo
tão fundo.
Escrito por Gustavo de Castro às 09h05
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