ANTONIO PORCHIA
"Creio que sois demasiado humano, porque tens demasiados defeitos".
NÃO HÁ FIM DO CAMINHO
Respostas não são resoluções.
FAZER AMOR
qual o sabor de espigas com côco e mel
qual o calor íntimo dos vulcões pré-nupciais
qual o branco cetim coberto de búzios e pérolas
qual falanges de sins e de sons, fazer amor
no acaso sob acácias
na contra-mão das línguas
no chão rente ao céu
no dia da própria morte
fazer amor
sem desviar os olhos
sem deixar de soterrar-se
sem abdicar de incêndios
sem declinar centelhar
o fogo alheio
ao fazer amor
Escrito por Gustavo de Castro às 10h34
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OS POETAS
Homens encantados de caos
Anjos rebaixados versos
De cem cantos angelicaos
NA FLORESTA, OS TRÊS REINOS
1.
Um Beija-Flor se equilibra diante do meu rosto, me olha nos olhos e sussurra assim: "homem..., tudo, tudo em ti deve ser sonho... até teus unguentos... até tua saliva... até teus lamentos... ". E foi-sembora...
2.
No caminho, recebo o abraço amigo de uma árvore centenária. Ela vem e observa detidamente:
- Nem sempre frutos amargos rendem piores doces!
3.
Mais na frente havia uma pedra drummoniana no caminho. Ela não me foi tropeço. Antes, apoio. Tomamos um copo de chá de chuva gelado juntos e, sem demora, ela exclamou:
- O meu ventre é um jardim de esculturas!
Escrito por Gustavo de Castro às 21h41
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O QUE É SER LIVRE?
Em algazarra de soslaios, os pássaros avisam a importância das pipas e dos papagaios. Entre vôos e apalpadelas no ar, nas ameias do tempo, querem saber quem pôs tantas rabiolas nos fios dos postes, ao vento. Sobre pipas e homens, cantam os pássaros:
- É livre aquele que não tem nada!...
TRAZIDO PELO ARCO-ÍRIS
1.
Volto para Brasília vindo do Rio e, no aeroporto, me dou conta de como gosto de morar aqui. Aconteceu que, em 2002, morando na beira da praia no Nordeste, em Pirangi do Norte, e trabalhando numa universidade em Natal, e após receber um convite de uma outra universidade para trabalhar na capital do país, estava em dúvida se me mudava ou não. Tinha de dar a resposta à universdade no dia seguinte. Estava numa dúvida danada se ficava ou se vinha. Não conseguia resolver o impasse. Foi quando decidi fumar um cigarro sentado numa pedra de meio-fio. Pensava na questão quando olhei o céu e vi um arco-íris apontando para o sul-oeste. Tomei então a minha decisão. Vim morar em Brasília trazido por um arco-íris.
2.
Não foi a primeira vez que decisões de viagens foram tomadas com bases em adventos dos céus e dos astros. Uma vez, eu e Samarone viajamos para o sul de Minas a partir da leitura do horóscopo. "Tempo bom para futuras viagens".
3.
Como diz a sabedoria dos meus alunos: "Quatro coisas são necessárias na vida: comer e viajar".
4.
Se eu pudesse em uma reencarnação voltar nuvem gostaria muito. Como elas, também carregamos chuvas e sombras.
RANHURAS
Ela vem me falar de ranhuras com a surpresa dos viajantes que vão a Cantão.
Nem sabe ela que os fólios de vento da sua língua
arranham como se fossem olhos
e seus olhos fossem unhas,
cujo os cílios são punhais
que riscam na pele esmaltes de uis
e ais.
Escrito por Gustavo de Castro às 13h11
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