O CÉREBRO É UM ESTÔMAGO?
Crânio, com ele quebrar pedras filosofais.
LONGE LUGAR
Se o círculo começa onde termina,
onde começa o que não tem fim?
O MUNDO
Não há nada tão profundo que a aparência não esteja ali.
O fundo bem fundo nunca dá pra alcançar
porque o fundo da essência é o transfundo dela mesma.
O mundo, essa coisa nenhuma cheia de ser.
CAOS E CAIS
Há regiões do cérebro que não servem para nada.
Acho que penso com elas.
Minhas conexões são eternos lapsos
entre o caos que sou e o cais que desconheço.
Se eterninstante caos
instantequero cais.
SER
O que pode conter o que em si não se contém?
O que pode ser menor do que o que não se tem?
Escrito por Gustavo de Castro às 08h39
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PORRES DE POEMA
Acordei com um gosto de sargaço na boca. Tomei porres de poema a noite inteira! Passei lua cheia sonhando com nada. Acordei com fiapos de sargaço e conchas marinhas no corpo. Pleno, no ar da marisia. A borboleta me trouxe um raio de sol pela mão e recitou dois versos. Não gostei muito das rimas dela. Eram muito aéreas, alfairosas... O sereno da noite umidifica a língua, disse a borboleta. Os olhos amanhecem amanhecidos de chuva, logo buscam o sol... A borboleta, então, com seu raiozinho de sol, mostrou o caminho por entre as nuvens. Para clarificar-se no pleno, no ar da marisia "Basta um poema por dia..."
UM HOMEM - QUALQUER COISA
Conheço um homem, ele existe, que vomita versos em cadernos que lhe acompanham. Ele tem muitos cadernos, várias estantes, e são seus livros mais preciosos. Livros escritos a mão, diários, anotações, pensamentos, leituras, sobretudo versos, muitos, de todos os tipos, pois este homem viveu muitos tipos, muitas formas de ser homem. Mas ele não cuida muito desses cadernos, não os têm em primazia, prefere acompanhar-se de poetas e de uma velha máquina de escrever Olivetti. Vive anônimo, na periferia, na periferia do Brasil, na periferia de uma cidade da periferia. Muitos confudem, como Carpinejar, que fazer poesia é encenar. Acho mais que é antes um ensebar... Ensebar-se na graça de ser qualquer coisa...
Juarroz dizia: "A única missão do poeta é acompanhar a sua noite".
Escrito por Gustavo de Castro às 10h44
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O SOL DE CADA DIA
O sol agora começou a bater nos livros. Passo o ano olhando o deslocar da luz do sol pela janela do quarto. Como estamos no outono, ele bate nos livros; no inverno, a luz muda para os discos, ao lado dos livros; depois, na primavera, ilumina minha coleção de pedras e, no verão, por fim, vai embora pro espaço que há entre a concha e o vinho...
ANTONIO PORCHIA
"Se não existisse o breve, não existiriam as flores".
Escrito por Gustavo de Castro às 14h49
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A DOR-DE-MUNDO
1.
Ela não chorava lágrimas, mas pedras de sal. E aquelas pedras foram caindo ao chão fazendo o barulho que faz a dor-de-mundo quando bate no peito. Os silvos da angústia, o marulhar arrepiante e ébrio da desgraça de padecer de amor... Quando o homem sofre, disse ela, Deus sorri e gargalha!
2.
Sem a angústia que temos seríamos o que somos?
3.
Amo os que sabem enfrentar a angústia e fazer dela motivo para seguir em frente. Amo os que levam sua vida para além de si e, mesmo sofrendo, transpõem abismos e charcos com a bússola da virtude à mão.
4.
Do mesmo jeito que existe a dor-de-dente e a unha-encravada, tenho certeza que existe a dor-de-mundo e a vida-encravada.
5.
Duas amigas que não se conhecem vieram me falar a mesma coisa: "A existência dói!!!", disseram. Uma delas, inclusive, nos últimos anos, tentou suicídio duas vezes. A dor-de-mundo aleija a força da esperança e a vontade de sorrir.
No mundo ainda faltam os homens fortes para as verdadeiras alegrias.
6.
Nosso mundo, diz um menino-velho e sábio, não é um mundo de alegrias, mas de tristezas, de padecimentos e de lágrimas. Justamente por isso é que devemos lutar... A dor é democrática, gosta de se dar a todos. A felicidade, não. Esta é aristocrática. Gosta mesmo é de ser conquistada!
7.
É preciso fazer as pazes entre o dia e a noite; fazer voltar a subir as estrelas ao céu; reaprender a contar as alegrias nos dedos. É preciso voltar a ter olhar infantil, qual olhos de jabuticaba, para defender-se do ascomundo pela graça da ingenuidade. É preciso voltar a querer ser anônimo; dormir na folhagem fresca e abraçar a terra como quem abraça o filho e a filha. É preciso tomar porres de vinho de vez em quando, e sair das sombras que construímos para nós mesmos. Voltar a ter coração; reinventar o ouvido, a nuca e o fígado... Refazer a face e assumir formas várias... É preciso desencravar a vida para, quem sabe, deixar que a dor-de-mundo nos tire do sensentido dela, e nos leve às praias sacras e brancas que ornam de venturas o mar do viver...
Escrito por Gustavo de Castro às 12h06
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