O EVANGELHO DA DESORDEM
parte IV
CIA DE JESUS
Quando me sinto só,
tenho por companhia
dissabores.
No corpo, cansaços.
Na alma, obsessores.
Não, nunca estou só comigo.
Tenho idéias bêbadas
e amigos.
E vazios em mim
como abrigos.
CÁCULO
Se todas as realidades são atmosféricas, então
que medida de pressão tem a massa
de um sonho num cochilo de verão?
CÁLCULO II
No quarto, vivo um quarto de mim, e o resto
não vive nem no quarto nem em mim.
RECLAMAÇÃO DE PREGUIÇOSO
Vida copiosa essa tal de vida ociosa!.
Escrito por Gustavo de Castro às 10h41
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O EVANGELHO DA DESORDEM
parte III
REGRA DE PRATA
: não faça você o que você não quer fazer.
Ó SÃO PAULO!
Essa bobagem
que diz Goethe
de que cinza
são as teorias
e verde árvore é vida – é,
além de tudo, ingênua:
cinza também é a árvore
e a vida. Já o disse São Paulo
de Piratininga.
PARA ZARA TU ESTÁS
Conhecemos o preço de tudo
mas não sabemos o valor de nada.
Um penhasco, o instante, uma flor,
não há como saber,
nem medir
o casto
valor.
SOLIDÃO
Às vezes deixo-me inteiro pousar pelas moscas
só para me sentir por inteiro o pouso de alguém.
SINCERAMENTE,
É bom não ter demasiado apego pela vida.
Não se sai vivo dela.
MINHA BEM-AVENTURANÇA
A minha poesia é prosada
como a pedra,
presente como o nada,
variada como a água
das temporadas.
Quando fica estancada
também é podre e empoçada.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h55
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O EVANGELHO DA DESORDEM
parte II
A QUEDA DE ADÃO
Fui engolido pela boca do céu.
Tornei-me alimento dos deuses.
E que sabor tenho?
E que cagada serei?
E se o céu se alimenta de mim
Eu de que lhe nutro?
E se o céu me masca a mim
de que árvore sou fruto?
POEMA PARA MINHA EXCOMUNHÃO
Pois vos digo de quem gosto.
Gosto dos bêbados e dos viciados,
e dos que se confundem com o lixo.
Dos que dormem sob marquises
e bebem o sonho alvo
da pele que esbranquece,
gélida, pálida, inchada e lívida.
Gosto também dos que fodem devagar
expressando o gosto dos que gozam.
Gosto,
dos que sabem que para cima é que se anda.
Gosto,
dos que nunca perdem a alegria e suportam
com ironia o peso dos imbecis.
Gosto dos que se fiam em sonhos
e dos que dançam
e dos que dizem:
´´um deus dança em mim``
porque já se sabem divinos.
Gosto dos anônimos, dos velhos do interior,
das mulheres que gostam de cozinha, dos que
oferecem aquilo que lhes resta.
E sobretudo gosto de crianças,
e das crianças iguais aos meus filhos...
Ah... as crianças, se eu soubesse
como amá-las de fato, se eu soubesse
ser pedófilo de fato
...E ainda assim angelical!
Escrito por Gustavo de Castro às 15h30
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AMOR NO RESTAURANTE
Após comer e lambuzar-se, a moça olhou o namorado nos olhos e pediu para limpar os dedos nas calças dele.
- Sim, respondeu, aproveite e limpe também a sua boca na minha!
AMOR QUE SE PERDE
o amor brinca de esconde - esconde
chega tarde para alguns nunca chega
o amor brinca de perder o bonde
Escrito por Gustavo de Castro às 16h32
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O NOVO HOMEM
1.
Encontrei o Fazedor de mundos tecendo o canto das cigarras. Perguntei de onde ele vinha com aqueles olhos chamuscados de sombras. Fui sepultar o velho homem sob as rocas do amanhã - disse ele - lá, onde já não cabe quem não sabe ser feliz!... E como é, então, indaguei, o novo homem? Da sua felicidade escorrem sumos de gerânios selvagens e chás de algodão-em-flor!... Da sua boca sobem perfumes, guizos doces de azougue e mel, onde se apalpam as novas sinceridades. Bálsamos de furor e mistério; liras cantantes de pão e vinho ecoam por sobre as montanhas e, com laivos de açafrão nas asas impacientes, em miraculoso caudal, do ventre do futuro, advém aquele que busca ser-acima-de-si-mesmo!
2.
Tenho sete mil anos e, não obstante, nasço a cada instante para a eterna novidade do peito. Aqui, explosões de supernovas ampliam a vontade sideral de amar... Em meu peito, o universo inteiro é um grão de mostarda amalgamado em mil felicidades!
Tenho mil fontes, mil jazidas nos olhos e, não obstante, fito a eterna novidade do mundo como uma pétala recém aberta na aurora. Mil saltos assomam meus pés em todas as direções. Mil feirantes, mil cantos livres despertam galhos, ramas e vidas, e a cada vôo que faço, considero o ímpeto do meu verso no espaço!
Escrito por Gustavo de Castro às 21h45
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