AS MENINAS INVISÍVEIS
TOMASINA
Tomasina tomava banho de auroras.
Seu olho era antes da lua; se pulava
da cama antes do sol. Tomava café de menta.
Espirrava incensos e cavalos marinhos.
Quando ia pro campo colher vento,
sacudia as vestes, despia-se pro Sol.
Tomasina era muda
e não sabia.
HELENA
"Tens o sabor da mordida e do fruto?" - Perguntava Helena aos que visitavam seu coração. Vivia dizendo pelos cantos da alma, com o exagero que lhe era peculiar: "Um cardume de enxames me matilha!"
Quando adornava-se de curimbas e sangas, Helena versava:
Os olhos é que fundem.
O coração só amarra.
Escrito por Gustavo de Castro às 10h46
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EMBRIAGADO DE FARINHA
Vejo um homem empanturrar-se de pão de queijo. Se embebeda de trigo, o homem. Na cor de seus olhos vejo estanhos.
TÍTULO DE LIVRO FUTURO (In memoriam)
Os estremecimentos da luz fazem nosso ser boate!!!
TÍTULO DE LIVRO A INSCREVER
Vós que ocultais pedras e praias
Escrito por Gustavo de Castro às 10h02
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O OLHO DA CORUJA
O olho da coruja ficou espiando teu movimento. Tuas sensações cantaram a dança circular. Gritastes então aos deuses como uma louca em procissão de ninhos. "Não olhes para o cutelo ou o punhal, que meu peito está inflores... Em todos os meus baixios, o que importa é o amor".
Feliz por sustentar aquele raio, comprei um anel de ventos.
Escrito por Gustavo de Castro às 09h46
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MÍNIMOS VITAIS I
do poeta René Char (1907-1988):
FASTOS
O verão cantava em sua rocha preferida quando me apareceste, o verão cantava apartado de nós que éramos silêncio, simpatia, liberdade triste, mar ainda mais que o mar cuja longa pá azul brincava aos nossos pés.
O verão cantava e teu coração nadava longe dele. Eu beijava tua coragem, ouvia teu desassossego. Estrada pelo absoluto das ondas rumo às altas gretas de espuma por onde cruzam virtudes assassinas para as mãos que portam nossas casas. Não éramos crédulos. Estávamos acompanhados.
Os anos se passaram. Morreram as tormentas. O mundo se foi. Doía-me sentir que teu coração justamente já não me percebia. Amava-te. Em minha ausência de rosto e meu vazio de felicidade. Amava-te, mudando em tudo, fiel a ti.
(Tradução Florence Dravet)
OCASO E PENSAMENTO (parte XIX)
De Emil Cioran (1911-1995):
Quando abusas da juventude, de homem te encontras convertido em poeta. Como podes não ser nem uma coisa nem outra? Falando em prosa sobre a morte.
O OFÍCIO DE VIVER
De Cesare Pavese (1908-1950):
E sobretudo lembrar-se de que fazer poesia é igual a fazer amor: a gente nunca há de saber se a alegria que sente está sendo compartilhada.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h39
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O EVANGELHO DA DESORDEM
última parte
NAVEGAR IMPRECISO
Se navegar é preciso
o viver é impreciso.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h23
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O EVANGELHO DA DESORDEM
parte XVIII
OS LIVROS DE SI
O homem é uma biblioteca inculta.
DES CULPA
Desesperar é nada esperar?
Descair é acimar, subir?
Desligar é acender o quê?
Desolar é o inverso de ensolarar?
Nem tudo o que diz faz - faz!
VIDA BANDIDA
Vida: elegia bandida. Mói meu verso qual cana, bagaço do bagaço, vai do lixo à lama, verso moído, lasso, sem alma, sem céu, traço ou papel, caldo escasso
cujo saldo de si expremido
deu mel.
SENHOR DOS EXÉRCITOS?
Meu corpo de cachorro magro não se preparou para a guerra, não fez exercícios marciais nem executou estratégias de assalto e domínio.
Esqueceu as armas escondidas num local que já esqueceu. Não se alistou, desertou, nem vestiu verde-oliva.
Não, o meu corpo não tem mapas, nem documentos secretos, nem nada além de filhos e dores nas costas.
Ele não é belicoso,
e em matéria de forças armadas seu estado maior é antes estado-menor.
Meu corpo é a paz do exército de um homem só.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h55
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