O CASTELO DOS CEGOS
Ouves a agitação das pândegas lá fora? Sentes o enxofre do Mundo? E o que ti fala a Natureza das coisas? Lá fora todos os pássaros e aviões estão parados. Há um sossego de morte no ar, nada voa dentro das nuvens, nada voa dentro das aves, nada voa. O ar é um sossego só, soturno, engarrafamento interminável de nuvens no céu!
Nada se agita e nada anda.
E cá, no Castelo dos Cegos, poço mal assombrado de almas, tudo também está calmo. Um engarrafamento interminável de almas iluminam os vãos... O céu está logo ali na janela do Castelo. Basta atirar-se e qualquer um sai em vôo. O que vibra no interior do Castelo são as portas, que ficam batendo assombradas de Mundo. E as ruínas rugindo, os dentes cerrados na imensa boca do Castelo dos Cegos.
Enquanto isso, o Feiticeiro dorme o seu sono na boca da noite, nos salões do Castelo. Ele é o pai dos Cegos, os aprendizes de luzes e de sombras. Passará o Feiticeiro a madrugada acordado velando a Noite de todos nós?
Velho bruxo, cansado e só. Tantas coisas viu que seus olhos parecem o de um menino...
Escrito por Gustavo de Castro às 19h58
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SOLSTÍCIO DE INVERNO
Não sei se está fazendo frio em todo o Brasil. Metereologia não é o meu forte. Mas hoje, 21 de junho, dia do solstício de inverno, dito poeticamente como a "noite mais longa do ano", faz frio por cá na aldeia. Dizem todos que esta noite representa o 'ápice da morte'! Dizem que os antigos acendiam fogueiras nos montes e altiplanos, e que as bruxas faziam o mesmo nas florestas e castelos. Os anjos dizem que é dia propício à reflexão, a se resguardar, silenciar, deixar morrer; deixar que se vá aquilo que quer ir embora. Deixar ir...
E entregar à noite mais longa do ano,
nossas fogueiras e âncoras.
Aprender com a noite e com a morte
a conduzir esperanças!
Nada mais temos a fazer
do que virar luminescência,
e acender pequenos fachos
na pura noite escura!...
Escrito por Gustavo de Castro às 09h41
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OS BANCOS DE PRAÇA
Não é bom compartilhar tristezas. Mas fazê-lo às vezes é algo que ninguém escapa. Outras vezes, não temos saídas, não conseguimos guardar o sentimento torto, que entorta tudo, dos olhos ao juízo. Niza gostava de compartilhar suas tristezas nos bancos das praças. Eu achava isso esquisito, mas a entendia. Certa vez, a vi sentar num banco de praça, com uma senhora desconhecida e falar de sua vida como se isso fosse simples e comum. A senhora a ouviu atentamente e perdeu três ônibus para casa. Admiro mais quem ouve as tristezas, como esta senhora, do que quem fala. Gente assim faz dos bancos das praças seu consultório. Ou seu confessionário.
Todo mundo tem necessidade de falar. Alguns, de falar muito. Acho que um tema recorrente na minha vida, todos sabem, pelo menos os que me conhecem, é o silêncio. Nunca fui muito afeito ao falatório geral. Sempre achei a palavra traiçoeira. Talvez porque tenha feito jornalismo, experimentado a literatura e praticado a poesia. Gosto do silêncio como quem gosta dos grandes espaços, dos abismos, das montanhas. Do céu...
Sempre achei também alguns bancos de praça locais sagrados. Ali, gente chora e gente ri, alguns namoram, outros sentam e calam. Tenho saudade, por exemplo, de um banco da praça no parque Buenos Aires, em São Paulo, onde lia Fernando Pessoa. Ali, uma vez, li este poema que ora compartilho com você, como se estivesse agora num banco de praça:
"Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."
Fernando Pessoa a 18.12.1934
Escrito por Gustavo de Castro às 12h47
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