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RAZÃO-POESIA o pensamento poema www.casadasmusas.org.br
 


ACARI parte 1

1.

O sertão é uma região de mistérios tosados. Aqui, a beleza está impregnada de dor; a secura está orvalhada de verde opaco e cinza gelo. Tenho a impressão de que todo dia é dia de domingo, e comento o fato com Emanuel. O menino está treinando os olhos: comenta a beleza das moças de Acari e de Caicó, fala dos cheiros e da amplidão. De manhã cedinho, fomos navegar no açude Gargalheiras, sob a guarda do remo de Rafael, 20 anos. A canoa é velha, mas o remador não é claudicante. Rafael fala do açude, da profundidade do lugar (28 metros), quando lhe peço para dar uma paradinha no remo, para um mergulho. O garoto recusa, diz que não, é quando insisto, mas o Rafael está firme, diz que não e não e pronto! Pergunto se o açude é poluído, ele responde "de jeito nenhum", é quando pergunto pelas denúncias de Jesus de Miúdo. O garoto engole a seco, e desabafa: "esse homem atrapalha a vida do lugar, dos pescadores, fica dizendo que a água daqui, e os peixes, matam de cançer", e comenta em seguida que tem gente querendo pegar ele.

2.

Para quem não conhece a história, explico. Jesus de Miúdo, 36, é um estudante de administração da UFRN, natural de Acari, onde me encontro agora com Emanuel, que ele veio a público denunciar a poluição do açude Gargalheiras. O açude abastece duas grandes cidades da região do Seridó, Currais Novos e Acari e, segundo Jesus, a água está completamente poluída pelos dejetos que são jogados no açude há anos. O nível de infecção é tão devastadora, segundo ele, que basta uma pessoa cardíaca beber a água para, dependendo do nível de infecção, vir a falecer em menos de 12 horas. A água está repleta de ciano-bactérias (as bactérias azuis) e aceleram o batimento cardíaco em minutos. Só este ano, segundo apurei, três pessoas morreram inexplicavelmente na beira do açude. A denúncia do jovem estudante fez com que ele despertasse a fúria dos políticos do lugar. O assunto foi para a televisão e os jornais; pesquisadores da universidade confirmaram a suspeita de Miúdo, e até o deputado federal Vincentinho (ex-presidente do CUT, que nasceu aqui, em Acari), falou sobre o assunto na Câmara dos Deputados.

3.

Diante da fúria de Rafael, decido depois do passeio de canoa, ir procurar Jesus de Miúdo que, ao me ver, diz logo: "fala macho!". Pergunta se tomei banho no açude, digo que sim, e ele arrebata: "ou tu é doido ou tu é macho". Ficamos proseando um bom tempo, ele me conta da pressão que recebeu na época da denúncia, de como o fato foi encaminhado e de como está atualmente. Jesus de Miúdo (esqueci de perguntar o nome correto do rapaz) vive como representante de uma fábrica de bonés, e o seu sonho é ser professor. "No dia que coloquei os meus pés numa universidade disse que era aquilo que eu queria para mim". Pois que seja, Jesus! Quando nos despedimos, ele diz para Emanuel, "seu nome é o mesmo do meu!". Emanuel fica rindo, sabe, que ambos os nomes significam "Deus conosco".

4.

Acari é uma bela cidadezinha de pouco mais de 11 mil habitantes, construída entre serras amplas e altas. Aqui, além de Rafael, Jesus e Vicentinho, nasceu também o ex-arcebispo dom Eugênio Salles. Diz a lenda que é a cidade mais limpa do Brasil, propaganda que repercute no lugar. Em termos de propaganda, notei que o povo do lugar é mesmo criativo. Ao passar diante do Centro Educacional Genius havia o anúncio: "Aqui onde o gênio é você". No centro de Acari encontro Luis, que disseram ser habilidoso no conserto de relógios. Como o meu estava quebrado, decidi procurá-lo também. Ao encontrá-lo, conversa vai, conversa vem, pergunto onde fica o Museu do Homem do Campo. Ele responde:

- E tem museu aqui?

- Diz que tem, respondo, disseram que é aquele prédio ali... -  e aponto o dedo para um casarão azul e branco num alto. É a antiga cadeia pública.

- Ah, sim..., é mesmo, mas ali eles só guardam coisas velhas.



Escrito por Gustavo de Castro às 21h20
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ACARI - parte 2

5.

As "coisas velhas" de que fala Luis é uma coleção de objetos que contam a vida dos componeses dessa região no século XIX e XX. Após o conserto do relógio, eu e Emanuel vamos até o museu. Emanuel fica encantado com a forma com que os componeses faziam o queijo no século XIX. Os queijos, natas, manteigas e derivados do leite desta região são ornamentos preciosos ao sabor de qualquer bon vivant. Saimos do museu e fomos direto almoçar. Ao sentar na mesa, a moça que nos servia disse de pronto: "Hoje sonhei com um disco voador sobrevoando o restaurante". Respondo: "Será que estamos parecendo dois et's?". Ela sorri e vai embora... Enquanto almoçava, comecei a lembrar da conversa com Rafael, o remador, que me explicou as diferenças entre um faxeiro, um cardeiro e um xique-xique, plantas típicas da região. Perguntei também a ele se alguém morava isolado por entre as serras, escondido do mundo. Ele me disse que tinha um velho, conhecido como Leite de Peba, que vivia isolado, sim, com sua mulher, no meio do mato. E por que ele chama de Leite de Peba? - Porque, responde Rafael, quando ele passar por aqui para pegar suprimentos diz que foi criado tomando leite de peba, daí o nome pegou. Após o almoço, subimos a serra da Torre, a mais alta da região, para ver se avistamos Leite de Peba e a sua esposa em sua clausura, mas nem sinal do velho. Encontramos mesmo (apenas) alguns bodes e três vacas. No meio da caaatinga podia agora reconhecer o que era um faxeiro, um cardeiro e um xique-xique, conforme havia me explicado o Rafael. A visão do alto da serra da Torre era estonteante, todo o Seridó espraiava-se diante de nós. Emanuel sentou na pedra e pediu para ficar um pouco. "Que coisa linda!", disse. Aproveitei o encanto geral para fumar um cigarro e sentir a serra recamar-me ainda mais de sertão; a pedra alta afiar-me ainda mais de beleza e de dor. 

6.

Enquanto navegávamos no gargalheiras, Rafael olhou para o céu e anunciou a chegada de um "pé de vento". Emanuel perguntou logo o que era isso. Dali a alguns minutos chegou o vento forte, balançando a água e a canoa, e o menino logo entendeu de que "pé" estávamos falando. Como o Rafael sabe? Ele consegue ler as nuvens e o formato das marolas. Assim como Rafael, outra que consegue ler a natureza é Angelina, uma índia feiticeira do lugar. Trago para ela um abraço da Florence. Ela recebe o abraço com o convite para um cafezinho. Angelina fala dos mistérios do Gargalheiras e, a certa altura, diz que está sentindo falta do seu facão. Depois que consegue uma foice, ela me presenteia com um galho de Jurema preta. Segundo ela, a Jurema cura o cançer e é uma árvore sagrada para os místicos da região.

7.

Comecei dizendo que o sertão é uma região de mistérios tosados. Agora acredito que esta tosa busca o formato do próprio mistério, seja lá o que isso signifique. Cada vez que parávamos para pedir uma simples informação, iniciava uma aglomeração, uns dizendo que o melhor caminho era por aqui, outros dizendo que era por acolá e assim por diante. Como entender o mistério dessa conversação constante, que se mistura a um silêncio profundo, advindo talvez de um Brasil profundo? Uma simples coalhada, num bar da esquina, virava uma conferência; um cafezinho, uma algazarra, um pitaco sobre o jogo de domingo, um acontecimento onde, de repente, quatro ou cinco homens começavam a opinar. Eita povo animado é o sertanejo! Agora estou aqui em Caicó, escrevendo numa lã house defronte a biblioteca pública Olgária Vale que está sendo re-inaugurada. De onde estou, posso ver o prefeito e os seus secretários e os homens soltando foguetões pela inauguração. Um sujeito, aqui na lã house, me olha e diz do nada: "Se tem uma coisa que odeio nesta vida é esse tal de fogo-de-artifício". Entendo. Agora vou ali olhar os livros da biblioteca pública. Já vi que Emanuel está interessado nos foguetões. Diferentemente do meu amigo aqui do lado, que odeia fogos, ele adora a magia destas explosões em que a pólvora vira fachos altivos, de luz cintilante multicor.



Escrito por Gustavo de Castro às 18h46
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NO SERTÃO

1.

Pego a estrada com Emanuel logo cedo. Vamos para o Sertão juntos. A dica é conhecer a Serra do Chapéu, no Vale dos Apertados, no Seridó. Passamos antes por Currais Novos e conhecemos o museu Tomaz Salustiano e as minas de chelita. Vamos chegando aos poucos, vendo as cabras, o lugar ermo, a entrada da antiga fazenda, agora transformada em mineradora. Paramos o carro, um Montana, e caminhamos entrando montanha adentro. Andando agora pelas galerias escavadas na pedra: 90 homens ainda trabalham na escavação do minério. O nosso guia aqui é o Zé, um rapaz jovem, de olhos verdes, que nos fala as histórias do lugar. As galerias possuem 60 quilômetros rocha adentro, níveis diversos, andares em giros e profundidades. Caminhamos por vias mal iluminadas, paramos às vezes em salões altos, esculpidos em abóbodas, de onde partem cinco túneis diferentes, em todas as direções, com a escuridão em cada uma por guia. O silêncio impressiona Emanuel. Temos, os três, capacetes e lanternas. Ouvimos o som dos pingos d´água, apreciamos as estranhas da montanha, sentimos o lugar... Duvido que ninguém nunca tenha se perdido neste lugar, digo. Zé então rebate, diz que não, que nunca ouviu falar de nenhum homem preso neste labirinto de 60 quilômetros. Por dez anos, o labirinto da Mina de Brejuí, em Currais Novos, ficou abandonado. Ao retonar às suas atividades, os fantasmas do lugar não tiveram mais descanso, agora são as brocas das perfuratrizes que cospem pedras e cascalhos em busca do luminoso mineral. 

2.

Pegamos novamente a estrada em busca do Vale dos Apertados, no sopé da Serra do Chapéu. De porteira em porteira, chegamos ao lugar. Lindíssimo, sem dúvida. O vale é tão amplo quanto o horizonte, não cabe dentro dos olhos e, lá no fundo, soerguida em toda a sua majestade, levanta-se um paredão sem fim. É a Serra do Chapéu. Zanzamos em nosso carrinho pra lá e pra cá, deslumbrados. Sem perceber, fomos entrando no leito seco de um rio, afundando na areia aos poucos. Tratava-se na verdade de um areial de cascalho movediço. Atolamos por inteiro. Descemos do carro e tentamos uma, duas, três, quatro vezes tirar o Montana, e nada. Estávamos muito distantes de tudo, mas havia o silêncio daquele vale em torno, havia aquele paredão majestoso e negro, a pedra grande e bruta, selvagemente se impondo diante de nós.

3.

Tínhamos entrado no leito seco de um rio seco. Cada vez mais conformado, comecei a achar que íamos passar a noite ali. Já pensava na fogueira e no trator que deveria chamar no dia seguinte quando ouvimos o som distante de homens conversando. Eram seis mateiros que enchiam um caminhão de lenha. Fui até eles e pedi ajuda. Eles estavam com problemas também. O caminhão deles estava constantemente atolando. Ajudei-os carregando paus e pedras para desatolar. Cheguei até a quebrar o relógio. Depois que desatolamos o caminhão, dois mateiros vieram então nos ajudar, eram Franscisco e Zé Reinaldo. Quando eles chegaram no carro, sugeriram que eu não voltasse pelo caminho que tinha vindo, mas seguisse mais para dentro do leito do rio, por outro caminho. Duvidei logo que aquilo seria o mais recomendável, pois iríamos direto para a vastidão fofa da areia. E eles, seguros, disseram que não. Segui então a recomendação deles. Foi quando tudo pareceu dar errado.

4.

"Tudo deu errado" foi o que pensei quando olhei em volta e vi que estava mais atolado do que antes. Mas os dois mateiros estavam convictos, bastava eu seguir a recomendação deles e sairia logo dali... "é por aqui", "por aqui", diziam. O carro andava um metro e atolava, andava meio metro e atolava, andava mais um metro e atolava, mais meio metro e mais atoleiro... Emanuel estava assustado e eu mais assustado do que ele. Não achava que íamos sair dali. Nem Emanuel. A certa altura, deu um desânimo geral. Os quatro pneus não se mexiam. Nós todos cavávamos, trazíamos pedras, gravetos, folhas na tentativa de sedimentar um pouco o caminho. Tentávamos e andávamos dois metros e voltávamos a atolar e novamente reiniciávamos o processo: novas pedras, novos galhos, novas folhas e gravetos. Os mateiros, devo admitir, tinham uma força, uma crença, uma certeza de que íamos sair, que comecei acreditar também. Acho que eles contagiram Emanuel também, que corria de um lado para o outro carregando pedras, galhos e folhas. E assim fomos, um metro, um atoleiro, meio metro, outro atoleiro, uma hora a roda esquerda, noutra a direita, e os homens e eu e Emanuel cavávamos a areia colando pedras e galhos e folhas. Assim o carro foi patinando até chegar numa pequena parte de grama marinha, e sair, ufa!...

5.

Devo o fato de estar escrevendo este relato agora à noite, nesta lã house de Acari, no alto sertão do Rio Grande do Norte, a Francisco e Zé Reinaldo. Jamais teria saído do aperto que passei com Emanuel no Vale dos Apertados, se não fosse a ajuda destes dois homens. Compreendi logo porque o vale é dos Apertados, claro. Enquando, de metro em metro, cavávamos, íamos conversando. Eles, claro, queriam saber que diabos nós dois tínhamos ido fazer naquele fim de mundo. Ver o Vale e a Serra, disse, eles então ergueram os olhos para o alto da pedra. É, é bonito mesmo, disseram. Quase ninguém vem aqui, disse Zé Reinaldo. O rio tá seco, o lago secou também, aqui só tem atoleiro, e quando alguém vem, disseram, é com um carro com tração nas quatro rodas. Entendi logo a buraqueira que havia me enfiado com Emanuel. Lembro agora que o carro só saiu porque eles construíram literalmente um caminho por sobre a areia, um caminho de gravetos e galhos e folhas de mato cortadas. Mas sobretudo um caminho de certezas e forças: aquela convicção-de-aço de que sairíamos dali era superior a qualquer certeza que eu jamais tive em minha vida. Via nos olhos daqueles dois homens um brilho generoso e intenso, uma força misturada com a alegria de ajudar, uma alegria simples e verdadeira, que não dá para duvidar quando acontece. Apenas segui a coragem deles... Foram me apontando o caminho de como sair daquele leito seco. Agora sei, era um caminho de fortaleza e de convicção.

6.

Totalmente imundo, eu e Emanuel seguimos pela estrada. Saímos do Vale dos Apertados dando graças aos deuses. Emanuel não quis olhar para trás. Eu não tive como. Tanto pelo retrovisor, quanto pela janela do carro, olhava constantemente aquela serra alta, aquele vale sombrio, aquele atoleiro de morte.

7.

Estamos agora no alto de uma pequena pousada, localizada no povoado de Gargalheiras, que fica no frontão de um desfiladeiro, à margem do açude do mesmo nome. Lá embaixo, uma barragem e o açude se alargam entre os morros a perder de vista. Quando anoiteceu, eu e Emanuel descemos até Acari para jantar, conhecemos então a igreja matriz, N. S. da Guia, de 1863. Emanuel diz ali: "esta igreja é um lugar puro". Concordo com ele. Ajoelho-me e faço uma oração para Francisco e Zé Reinaldo. Deus abençoe os homens que acreditam, os fortes e os convictos!

Amanhã tem mais...        



Escrito por Gustavo de Castro às 19h23
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O OUTRO LADO DO SOL

1.

Caminho em Natal com o poeta Samarone Lima. Ele me traz lágrimas secas, daquelas que a gente pendura como carne salgada para escaldar sob o sol. Falamos sobre o outro lado do Sol, enquanto comíamos sushi. Do outro lado da Lua certamente há sombra, mas do outro lado do Sol, não. Há espaço vazio iluminado de fogo, certamente. Tudo isso para dizer que o poeta tomou uma cerveja cansada, na praia, vendo a chuva chegar e o Sol se ir. Falou domesticamente seus cansaços, como um boi domesticado pelo açoite e pelo giro. O boi-poeta já conhece a moenda. Range sua dor de Lua mais alto que a mó e a estrada. Faz bem ver poetas de vez em quando. Eles renovam as nossas tristezas como sóis num inverno enevoado.   

2.

Tomamos uma segunda cerveja num dos botecos da Quinta e da Baixa. Estávamos mudos, o poeta e eu. Uma garconete aproxima-se com dois isqueiros. Dirige-se direto à Samarone, pede que ele tente acender um isqueiro, Sama me olha, não entende nada. De onde apareceu esta moça? Ela está determinada: tem a mão dois isqueiros e, defronte o Sama, insiste para que ele tente acender um deles. O negócio teima em não acender, ele tenta, tenta, depois ela entrega o outro que, do mesmo jeito, não acende. E Sama então diz: - Porquê você está querendo fogo? Ela diz: - Não, é você que está querendo! Então ela descobre que falava com a pessoa errada. Não era ele que queria acender o cigarro. Percebemos o engano e ficamos a rir. Estávamos todos, o Sama, eu e a garçonete como aqueles dois isqueiros velhos: a faísca tava fraca e a pedra alisada, gasta de tanto apanhar da luz.

3.

O que seria a terceira cerveja, acabou virando um buquê de vinho a três. Foi quando a moça triste aproximou-se do poeta com seu vestido vermelho. Tinha um jogo de contas encantadas debaixo da língua. Ficou muda em todas as ocasiões e, como louca varrida, contou seus fantasmas. A cada taça de vinho, sussurrava vendavais e enxurradas de maresia. Contou que, quando Clarice Lispector esteve por doze dias em Natal, hospedada no Grande Hotel, na Ribeira, olhou a cidade e disse: "...Natal é sem caráter!". Escreveu isso em suas correspondências. Daí o vento disse: "Saiu um livro sobre Natal, vi na livraria, não lembro o nome, mas lembro a foto da capa: duna, areia, muita areia, duna, mais areia, mar... Essa vastidão de nada, disse o vento, tem mesmo o caráter do Nada.

Também sinto o Nada-Natal assim.

4.

A quarta cerveja injetou sangue em todos os sonhos. Desceu redonda como roda-gigante pela garganta do palhaço. O poeta fumou um charuto inteiro sem dizer palavra. Cada vez que soprava seu desabafo de fumo, podia ver palavras escritas no véu do vento passante. À beira-mar soprava um vento morno, de corte cetim. Notei logo que o silêncio do poeta incomodava o vento. O vento se agitava e agitava a palha do coqueiral, que praguejava entre si, dizendo: - Eis mais um poeta calado de mar!!! Eis mais um Fernando fornado, um navegante, um desassossegado!!!

Filhos da Noite e crias do Sol, os poetas seguem a sua embriaguez anônima e, de cerveja em cerveja, cantam pela rua como Rosa: "ser forte é permanecer quieto"!     



Escrito por Gustavo de Castro às 18h53
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