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LAS BRUJAS

Corra Andorinha, corra lá pros lados dos azuis, corra saltitante que "as bruxas estão soltas", como piou o Gavião. Corra Andorinha, corra, que não podes trazer verão a estas praias, não podes, Andorinha, veranear tuas asas. Deixa o ouro ser ouro sem tapume, deixa a cobra falsear seus movimentos e dançar qual chama pelo chão, deixa.

Não esquece, querida Andorinha, não esquece de voar pros lados dos azuis. 



Escrito por Gustavo de Castro às 12h18
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ALGUMAS CRUZES

Hoje é um dia triste. É um dia onde as cruzes se multiplam, porque a tragédia não tem pátria nem time de futebol.

É sempre estranho ficar frente-a-frente com a morte.

Emanuel e eu vimos cruzes por todos os lados, nas estradas por onde passamos, viajando 800 quilômetros de carro. Em todos os sítios e porteiras, muitas cruzes e capelinhas sertão afora, que adornam de luto as estradas nacionais. Muita gente morre viajando. Estamos todos de passagem é verdade, só não sabemos a hora e a forma com que a grande boca da Vida virá nos buscar. No dia em que a tragédia de um homem não comover a outro homem, estaremos perdidos, como homens e animais.

Talvez metade da população nacional (isto é certamente um exagero) já passou pelo aeroporto de Congonhas. Quem entre nós sabe o que é São Paulo, sabe o que isto significa. Hoje o cinza está ainda mais garoado e mudo. Tudo está frio como o inferno. O pior dos mundos.

Todos nós sabemos, atordoados, que não valemos mesmo muita coisa. Não passamos de um Triz, diz a poeta mineira Maria Esther Maciel. (Triz é o título, aliás, do seu livro). Cada um de nós poderia estar dentro daquele vôo, claudicante, passante, em trânsito, indo a algum lugar, como vamos a algum lugar todos os dias. 

Estranha concomitância no dia de hoje. Logo hoje que  escreveria sobre as estradas, as cruzes na beira dos caminhos, as pequenas capelinhas, o ofício da morte no caminho. Eu mesmo tive medo em dirigir estrada afora: vi como são os homens quando têm máquinas possantes, e vi os transportes carga-pesada; vi homens que bebem e dirigem e que vão pelos caminhos sedentos de velocidade.

Mas não dá para escrever mais nada hoje. Porque as cruzes foram multiplicadas. Chega aqui também o fim do relato desta viagem pelo Sertão com Emanuel.

É hora de voltar a calar 

e calado ofertar uma flor

para os passantes que se foram

ninguém sabe para onde.

 

para os mortos do vôo JJ 3054



Escrito por Gustavo de Castro às 13h39
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CARNAÚBA DOS DANTAS

Por todo o Nordeste, em todos os lugares, vemos centros de peregrinação, locais de romaria, quermesses, para onde, todos anos, seguem milhares de romeiros. Aqui e ali, do norte do Maranhão ao sul da Bahia, encontramos morros, capelas, oitões, grutas, ladeiras, montes e cidades dedicadas à atividade da fé. 

Carnaúba dos Dantas é uma destas cidades. Não sei nem se podemos chamá-la de cidade, é mais um povoado. "Dessas cidades onde você dá um grito numa ponta e se escuta na outra", me disse Jesus de Miúdo, quando o visitei. Podemos dizer que a cidade cresceu aos pés de um monte, o Monte do Galo, uma pedra branca e alta de, aproximadamente, 400 metros.

A cada 25 de outubro, uma multidão corre ao lugar para depositar suas velas, flores e pedidos nas escadarias de N. S. das Vitórias. Há muito que as "nossas senhoras" (da Paz, do Sagrado Coração, das Dores, de Lourdes, Desatadora dos Nós, etc) tomaram o lugar de Cristo no coração do povo. "Cristo tá lá em cima, mas Maria tá aqui no nosso coração", disse certa vez a beata Orminda, quando passou por aqui.

Aqui em Carnaúbas, o culto é à N. S. das Vitórias, que tem feições azuis e um olhar firme e duro. A pequena capela azul mais parece uma porciúncula, foi construída no alto do monte, em 1927. Logo ficamos sabendo que o carro não chega lá. A caminhada mais parece uma escalada de tão íngrime, coisa mesmo de quem quer pagar os pecados. Como dizem por cá, trata-se de um ladeirão... Sobe-se paradando, ofegante, arfando o ar. A subida é demorada, pontuada pelas inscrições da via crucis.

O sol escalda se for dia, mas à tardinha deve ser, certamente, melhor. A cidade-povoado vai ficando lá embaixo cada vez menor, cada vez mais insignificante... E o vento começa a soprar diferente; de longe, no horizonte, já se percebe um morro e sobre ele um outro castelo medieval. De onde vem (alguém sabe dizer?) essa "tara" daqui por castelos medievais? De repente, no meio do nada, alguém decide soerguer um castelo...

Que destinos habitam um sonho assim? 

Pois bem, lá está no horizonte o castelo e a caatinga, a vegetação de mato cinza sem folha verde. Mas no horizonte, tudo é, inexplicavelmente, verde. Quando se chega lá em cima, vemos o chão preto, fervido de velas queimadas. Por toda a subida, pequenas barracas aqui e ali sugerem que, no dia da romaria, instalam-se vendedores de tudo. Há um lugar onde lemos: "O Bar dos senhores romeiros", noutro "Agua a 1" e assim por diante. A vista lá do alto (e o calor, e o vento, e o silêncio) não agonizam. É novamente o sertão e a caatinga falando majestade, adocicando a alma de quentura quente. 

Tem um galo imenso, no alto do monte, que alguém construiu para lembrar da aurora. Mas também, certamente, para lembrar da madrugada. Fica-se mudo por um bom tempo até lembrar de descer. Daquela pedra furada e alta, que mais parece uma fortaleza Maia ou Inca, o ir embora é demorado como quem morre devagar.

Você desce lá de cima trazendo algum alívio, é verdade, mas logo se dá conta de que todos os infernos estão logo ali, no sopé do monte, te esperando em risos, com uma água de côco gelada na mão.

Tudo bem.

Vivemos mesmo entre escaladas e quedas, iguais a Sísifo, o penitente grego, no sertão.   

 

para todas as beatas do sertão.



Escrito por Gustavo de Castro às 09h11
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CAICÓ

1.

Errei ao divulgar o nome correto da biblioteca pública inaugurada aqui em Caicó. Na verdade é Olegário Vale e não Olgária Vale como havia dito. Eu e Emanuel, mesmo sem convite, participamos do coquetel de inauguração e depois entramos no prédio para conhecê-lo. Trata-se de um belo edifício neo-clássico, de dois andares, repleto de livros, revistas e computadores. Um sertanejo do meu lado, deslumbrado, diz: "É coisa de cinema!". Dei uma espiada nas salas (todas com nomes de ex-padres de Caicó), nos livros e nos computadores. O acervo ainda não é de cinema, mas o espaço favorece o livro, a leitura, o pensamento e a cultura. Tudo de bom.

2.

Não é fácil aguentar o sol e o calor do sertão. Logo cedo nos levantamos e vamos tomar café no mercado público. O sol está forte e o calor é intenso. Ouvimos alguém dizer: "Hoje o dia está fresco, agradável". Para quem conhece o calor do sertão sabe que, realmente, o dia está fresco. O café da manhã mais parece um almoço: a moça diz: "moço, hoje temos caldo de carne, cuscus com bode, coalhada com cuscus, panelada, buchada, queijo assado com pão, pão com nata..." E todos se deleitam e comem. Fico imaginando como será então o almoço. No mercado, podemos ver toda a força e alegria do sertanejo, o vai-e-vem dos homens e das mercadorias, as brincadeiras, os jogos, as conversas. O que impressiona a Emanuel é o número de motos na cidade. São quase cinco mil motos levando e trazendo gente. Decidimos dar um voltinha de moto-taxi pela cidade: ver a ilha de Santana (que se prepara para a festa anual), a igreja matriz, a Casa de Cultura, o Mosteiro das Clarissas e o Castelo de Engady.

3.

Nas Clarissas, somos recebidos pela irmã Teresa, que nos informa o número de irmãs na clausura: 30. Essas irmãs sempre me impressionam. Depois que entram para o convento, nunca mais põem os pés para fora (a menos que desistam), e chegam a ser enterradas depois de mortas no próprio mosteiro. 24 horas por dia elas se revesam numa pequena capela interna, rezando pela humanidade. Como que numa troca de guarda, elas trocam os turnos e, de joelhos ou sentadas, desfiam o terço de suas crenças.

4.

O Castelo de Engady, por sua vez, está totalmente abandonado. Existem até relatos de fantasmas que habitam o lugar. O castelo é o sonho de um padre, Antenor Silvino, que começou a construí-lo em 1973, para que fosse o mosteiro das Clarissas, mas jamais o concluiu. É um prédio igual aos castelos medievais que vemos nos filmes ou mesmo igual àqueles que encontramos na Europa, só que menor: as paredes são mais finas e os salões mais modestos. As escadas de madeira estão ruindo, a área toda está mal cuidada, não existe guia, e está tudo empoeirado e sujo. O padre vendeu o prédio para o governo do Estado é o que me dizem. Mesmo assim, Emanuel fica encantado, e indaga: como alguém pode ter sonhado uma coisa dessas? Mas entende rápido que sonho é sonho: quanto mais longo, largo e alto, melhor.

5.

O povo de Caicó sempre me pareceu um povo feliz. Sei do perigo dos chavões que corro ao dizer isso mas, quando estou aqui, não tenho como não lembrar de Caruaru, Campina Grande, Catolé do Rocha, entre outras cidades sertanejas onde os homens gostam de usar chapéu, gostam de "tirar onda", falam com a gente sorrindo e parecem não conhecer tempo ruim. Ouvindo as rádios locais e vendo os cartazes espalhados pela cidade, chama atenção como as bandas de forró conquistaram, definitivamente, o sertão. Os nomes das bandas são igualmente, me parece, uma forma de "tirar onda", algumas chamam: Capim Cubano, Ferro na Boneca, Cinzeiro de Motel, Pé de Urtiga, entre outras. Viva então esta capacidade de "tirar onda" e de resistir (dançando forró ou não) às agruras da vida.     



Escrito por Gustavo de Castro às 10h20
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