ROBERTO JUARROZ
Cuarta poesía vertical - 1969
#27
Sobre que lado se apoia mais a ternura do homem?
Sobre seu peito, sempre relativamente aberto?
Sobre seu ombro, sempre relativamente abandonado?
Sobre seu perfil, sempre relativamente alheio?
Sobre que lado sentirá ele mais a terra,
quando cai para tornar a levantar-se
e quando cai para que outros se levantem?
Será peculiar esse lado para o tato do polvo, da pedra ou do barro,
para o deserto, o campo de batalha ou o jardim?
Sobre que lado esquecerá ele mais fácil,
se mata mais fácil,
se ama mais fácil?
Sobre que lado se abre o vôo que levamos,
o fruto que levamos,
o zero que levamos?
Sobre que lado o homem é possível para o homem?
Escrito por Gustavo de Castro às 12h30
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DANÇANDO COM MEL
Gosto de dançar igual gosto de comida baiana, de montanha, de floresta, de gente simples e de cocada. Todas às vezes que posso, danço um bocado com ou sem companhia. Em São Paulo, nos meus dias de faxina, no apartamento da Santa Cecília, aproveitava que o Samarone tinha comprado um som super-potente, com umas caixas enormes, e bailava pelo ap tendo a vassoura como parceira. Atravessei um ano novo, certa vez, em Buenos Aires, dançando no albergue da juventude com gente do mundo inteiro. Naquela noite, o mundo todo dançou ao som de Mestre Ambrósio!
Dançar é colocar o sol de dentro para fora, é mover o movente fogo, acelarar a alegria, desfolhar sorrisos pelos pés. A melhor definição que ouvi do Tango, por exemplo, foi de Ernesto Sábado, que o chamou de "pensamento triste que baila"...
Neste domingo, dançei minha alegria e minha tristeza ao ar livre da lua cheia, ao som da banda carioca Monobloco, que tocou sua alegria diante da Esplanada dos Ministérios, de graça. Fiquei a pensar como a dança me move para o que é importante, me leva de volta ao lírios e às cirandas, me faz dar a mão de novo a mim mesmo, como quem diz, "vamos lá meu velho, que a dança ainda não acabou!".
A lua cheia, o céu limpo, a gente pacífica, o vento sorridente, a alegria sincera e desinteressada ao remexer - mesmo que desajeitadamente - o esqueleto é, para mim, uma celebração e um arrebol. Dizem que do substantivo arrebol nasceu o verbo transitivo arrebolar, com os significados de dar cor ao entardecer e dar forma de bola a alguma coisa. Mas eu ainda prefiro outro signficado: um que talvez nem exista: o de rebolar os quadris ante o crepúsculo que é a vida.
Pois que seja assim.
Se a escola de samba que é a vida atravessar, meu amigo, não deixe de dar a mão à ciranda
e cirandar!
Escrito por Gustavo de Castro às 22h54
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