ANTONIO RAMOS ROSA
poema do livro Felicidade do ar (1990)
VERTENTE VERTICAL
Quem chama o meu nome é a minha sede.
Quem diz o meu barco é a flor do vento.
As sílabas do corpo são água viva e oiro.
O mar resplandece entre duas colinas.
Os galos rubros dos montes e as velas brancas do horizonte
criam a transparência e a semelhança.
Vou por um caminho que caminha no meu sangue.
Purifico-me com as amêndoas de gelo sobre mesas de pedra.
Pedra, planta, pássaro, homem e mulher na incandescente unidade.
Habito as evidências do mundo com olhos de raízes.
Dispo-me para consagrar um segredo ou um deus fulgurante.
A página é um arco de sal, a vertical vertente
que aguarda o peso das coisas, a aliança azul.
O vazio tornou-se um celeiro habitável, uma ilha transparente.
As vértebras despertam os arbustos vermelhos
e à garganta ascende o infinito odor verde da floresta.
A elegância dos cavalos atravessa a espessura negra.
Uma leve respiração ondula ao ritmo da folhagem.
Habito e não habito o centro, sou e não sou a palavra.
Não conheço o deus vivo que sou, o deus do deus.
Quem move estas sílabas é uma árvore de água.
Toco o rio e a pedra na distância intacta.
Esta é a minha oferenda sobre um pequeno muro de terra.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h29
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ENCONTROS NO VALE DAS ALMAS
1.
ANTONIO RAMOS ROSA
Nada é mais sagrado do que descobrir uma fonte. Quando se tem sêde, caçimbas, charcos, brejos, lagos, poços, algum esboço de poema, servem para matá-la. Alguns têm sêde d'água, de riachos fundos, outros têm sêde de mato, de florestas altas. "Entre altas torres vou cavando fundos poços", disse certa vez Roberto Juarroz. Poetas são como charcos, brejos, caçimbas e poços. Essa foi a sensação ao encontrar pela estrada o poeta português Antônio Ramos Rosa. Nada é mais sagrado do que descobrir uma fonte como Ramos Rosa. Nossos olhos seguem com ele o serpentear dessa fonte doce no Vale das Almas, que é a poesia. Todos sonham lá no Vale quando a tarde chega noite. Nós, os menores, com cachimbos e penumbras, falamos pouco. Juarroz, Sábato, Huidobro, Porchia, Sama, Gelman, Zahra, Silvia, Esther, Ramos Rosa, Flor, Char e mais uns e outros, porque o Vale das Almas é o lugar para onde convergem todas as chuvas.
O estilo do vale é o a-braço de rio.
2.
FLÁVIA SUASSUNA
Pastorando o tempo, me deparo com uma poeta: Flávia Suassuna, de Recife. É bom demais descobrir gente profunda, sensível, transparente. Sempre quis publicar um poema seu aqui no blog, mas ficava quieto. Agora ela autorizou. A alegria de encontrar bons poetas é algo que não tem fim. Graças a deus. Acho que tive a mesma alegria quando me deparei com Maria Esther Maciel, poeta mineira. O blog de poesias e tranças da Flávia Suassuna é um misto de muitas coisas. Como não acredito em crítica literária, prefiro que os interessados possam conferir por si só em www.fsuassuna.blogspot.com
No Vale das Almas, Flávia, jorra fonte na alegria de todo mundo!
3.
SOLIDÃO
de Flávia Suassuna
Eu sou esse poço bom lá dentro de mim e sua solidão confortável.
Aquela água serena e fresca, naquela noite presa e escura, constelada de brilhos nítidos e calados.
Segredo que Deus ali depôs para que eu um dia desvendasse.
E minha ligação com esse abismo guarda um tempo parado: sou o que sou antes dos relógios.
Que milagre mantém de pé esses tijolos molhados?
Ah! O Engenheiro que o pensou com suas paredes mágicas que se sustentam do absurdo cilíndrico de sua forma!
E essa água limpa, lar subterrâneo, é carga invertida: minha solidão me cura.
Sei que há solidões que doem; corpos que ardem de desejos desencontrados; lágrimas sem ombros; noites frias; problemas sem solução; dor sem analgésico; enfrentamentos necessários; queda sem mão...
Esse poço mistura dor e consolo.
Sou esse poço e sua misteriosa arquitetura: minha água, macio lençol, concorda com a física rude de seus tijolos sobrepostos; mas, às vezes, discorda e enfrenta presa o perigo dos terremotos.
Escrito por Gustavo de Castro às 22h27
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