NOTAS SOBRE O NADA
Contei trinta minutos no relógio o passarar de uma fumaça, porsupuesto, na contra luz do fim de tarde, em jardim de paz e de poesia, mudei de posição e fiquei a espiar o vento fumando cachimbo por toda a tarde. Depois mudei de posição e contei trinta minutos no relógio o meu novo espiar de nada. Foi quando as pernas começaram a formigar e os passarinhos zuniram alegria passageira. O que me fez, aliás, mudar de posição. O importante, naqueles trinta minutos de nada, era olhar o vento batendo por todo lugar. E mudar de posição! Nas folhas da Beladona, nas caspas da lua cheia, no zinco da noite à vista, nos cílios da amoreira, no convés dos solitários: em tudo moram os ventos do fim da tarde.
Em cada lento olhar, tomar uma água, espiar o tempo, o ninguém na rua, o vazio clonado por toda a parte.
Ai, meu deus, como é belo
como é belo, meu deus,
ver Beladona passar
E mudar de posição.
Escrito por Gustavo de Castro às 22h45
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O AMIGO AUSENTE
No fim do mundo, a tristeza do homem barbado faz chover desertos de orações. Caminha calado pela calçada com a bolsa surrada de tanto apanhar no imprensa-prensa do mundo. Repleta de liras colhidas nas esquinas, o homem barbado tem um laço no olhar que capta e amarra quem dele se aproxima. O homem está agora a mudar de apanhares. Em vez de apanhar pinhas faíscadas, colhe agora restos de lágrimas alheias.
Quer fazer um elixir contra a tristeza que mora no fim do mundo.
NOTA SOBRE O LANÇAMENTO DOS OSSOS
No fim das contas, resta-nos os amigos, a penumbra compartida, algumas taças de vinho, o riso e a lágrima, resta-nos a poesia e a estrada. Grata e encantada surpresa: Paulo Alves me entrega de presente uma foto de Manoel de Barros que, por descuido ou esquecimento, passa toda a noite junto dos "ossos", na mesa.
Então, sua benção, mestre Manel.
Escrito por Gustavo de Castro às 14h55
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ROBERTO JUARROZ
Decimocuarta poesía vertical # 70
Não há cuidado: simplesmente há mais caminho.
Ou não há nada: a abolição do caminho.
E o caminho é dor.
O cuidado seria não sofrer.
O cuidado seria não caminho.
Só não cuidar-se mantém o caminho aberto.
AL BERTO, poeta português.
HORTO DE INCÊNDIOS
quantas áfricas murcharam na boca do amor?
quantas feras despedaçadas foram comidas ao entardecer?
quantos homens conseguiram apaziguar o relâmpago da paixão?
quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos?
Escrito por Gustavo de Castro às 15h24
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