"ESTÉTICA DO CORAÇÃO"
D. Úrsula não tinha, decerto, o instinto da arte; mas o amor da família lhe ensinara uma estética do coração, e essa bastou a fazê-la admirar o trabalho de Helena.
Machado de Assis, em Helena.
Escrito por Gustavo de Castro às 19h41
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BARRO CRU
O destino me deu de presente a amizade de alguns poetas.
Gosto sobretudo das poetisas com quem compartilho essa sensibilidade que Machado de Assis chamou de "estética do coração". Não é exagero dizer que gosto dos poemas coloridos e místicos de Florence Dravet, da simplicidade alpina de Maria Esther Maciel, da delicadeza marítima de Gabriela Leite, do furor sensual de Tenille Queiroz e do balé vulcânico de Sílvia Góes, de quem publico um poema hoje. Silvinha acabou de abrir também um blog: o Barro Cru, que pode ser acessado no www.barrocru.blogspot.com/
A Sílvia está sempre por aqui, fazendo seus comentários poéticos. Acho que tenho até uma dívida artística com ela, dívida que procuro pagar oferecendo-lhe às vezes algumas seivas de beleza. Mas meu débito é muito grande, isso porque ela acompanha este blog a muito tempo, o que faz dela uma parceira da Razão Poesia. Sempre acreditei que a poesia é uma espécie de companhia, um alforje mágico, um botilha com gênios engarrafados, algo que levamos atado ao coração e à vida. Sendo assim, o que seria de mim sem o acompanhamento de algumas dessas feiticeiras, que jogam seus pós mágicos na minha capanga?
Com vocês, então, alguns elementos da alquimia amorosa e filosófica de Silvinha através de um poema seu, Instinto.
INSTINTO
Tenho lágrimas quentes, gotas que já dissolveram tantos aços
Tenho olhos que dizem mais do que multidões, mesmo calados
Tenho dedos feitos de delicadécio, elemento ainda não desenhado
na tabela periódica
Tenho uma dor feita de mundo, dilacerando o profundo nas janelas
Míopes e afiadas, escorrendo garfos de prata em minha garganta seca
Tenho quase tudo além da inocência que logo me matará de novo
Denodada a denodar espelhos
Ontem ganhei mais dois dias de vida e fui à feira procurar multidões
De corações de aço, para devorá-los, remendá-los mais belos
e saciar minha sede eterna
Voltei para casa sem nada, sem olhos, sem dedos, sem lágrimas,
sede que já era fome
Todo o delicadécio entranhado nas mãos não salvou os homens
nem a mim
E ontem ganhei mais dois dias de vida com essa dor
Agora transformada em corpo inteiro, recheado de gritos
E do aço dissolvido nas lágrimas ferventes, eu oleira, bordadeira
Escafandrista na minha própria alma, adormeço fabricando armas
Hoje não suporto talhos, arranhões, nem tiros de raspão
Só quero aquilo que rasga, lacera, atravessa
Arrotei, desculpe-me,
É que acabo de comer dois corações e por enquanto me acalmo
Silvia Góes
Escrito por Gustavo de Castro às 11h42
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HISTÓRIAS INFANTIS E CONTOS DE NADA - PARTE II
(Com Florence Dravet)
AS MANCHAS DA GIRAFA
A girafa perguntou para a outra:
– Por que eu tenho essas manchas pretas no meu corpo todo?
E a girafa mais velha contou:
“Quando Deus criou a girafa, ele a achou muito sem graça assim toda amarela. Então Deus disse:
– Está faltando alguma coisa.
Mandou chamar o pintor do céu, o mesmo que pintou o céu de azul, e disse:
– Veja: acabei de criar as girafas, mas estou achando elas muito sem graça com essa cor só. O que você me sugere?
E o pintor do céu respondeu:
– Senhor, vou olhar nas minhas tintas qual é a cor que melhor serve.
E ele trouxe o verde, o laranja e o preto. Colocou as latas de tinta no chão do céu e começou a falar sobre as cores. Empolgou-se com o assunto e, sem querer, tropeçou na lata de tinta preta. Caiu do céu então uma chuva preta sobre todas as girafas. Elas bem que tentaram tomar banho para limpar o preto. Mas Deus achou as girafas bonitas assim enfeitadas e não deixou que a tinta saísse. Desde então, nós as girafas temos manchas pretas por todo o corpo”.
Escrito por Gustavo de Castro às 21h46
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