ÀS VÍSCERAS
Confesso que a escritura me atormenta como um espectro. Um fantasma no écran do mundo. Escrevi tanta coisa que perdi, que deu vontade de bater fotos com os olhos esta semana. No supermercado encontrei Zé, o doido, com os pés embaixo da gandola de sabonetes. Ele estava calmo; Zé é um doido calmo; talvez um doido como eu ou como você. Ele estava sentado diante da prateleira de sabonetes, devidamente arrumada. Zé, em lentos movimentos, tomava um sabonete e trocava de lugar com outro, da mesma marca. Depois voltava aquele à sua posição original.
Quando bati a foto, Zé sorriu para mim.
Outra imagem que fotografei nos olhar
Uma dessas meninas com olhos brilhantes dizendo que estava amando. "Professor, tô amando!", e ria, e se rindo dizia: "Tô amando!".
- Pois ame e dê vexame!
E pra terminar...
Fotografei também as mãos dela quando juntas, no ato da entrevista entre taças e vinhos.
Parecia a doçura quando encontra a beleza...
Escrito por Gustavo de Castro às 18h28
[]
[envie esta mensagem]

ARTE É INFÂNCIA
Rainer Maria Rilke diz que "arte é infância" e a poesia nada vale sem a experiência estética que lhe segue. "Arte é infância": a realidade do sonho, da fantasia, da imaginação não dissociado da própria realidade. Poesia como experiência estética: vida e obra não dissociada; trabalho e beleza como unidade-de-vida.
Os poemas da Florence me remetem ao conselho de Rilke. Eles são sem títulos, abertos, não dirigidos pelo chamado do frontispício. Como prometido, aqui, dois deles, publicados na seção Lunicórnio, em Os Transparentes:
Perto da lua num céu de guizos, um Lunicórnio ergueu sua força encimada. Naquela noite imensa, foram poucos aqueles que ousaram olhar a altura. Ficaram retidos à beira de si mesmos a contemplarem o abismo e não viram finas poeiras que penetraram os interstícios de seus pensamentos. Os imprudentes acordaram com aquilo, brilhando invisível, e puseram-se a caminhar no infinito.
Com o tempo que nunca se extinguiu, aprenderam a despir as palavras de suas cascas. Fabricaram cristais.
As raízes da flor pendiam no abismo.
Tinham-nos avisado: não haveria liberdade sem medo. E quando nosso pensamento nos conduziu aos limites da linguagem, enchemos a fronte atrás com flores. A minha era amarela e o Lunicórnio me acompanhava.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h19
[]
[envie esta mensagem]

|