INSTRUÇÕES PARA CHORAR - Julio Cortázar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isso um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicmente.
Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.
(De Histórias de Cronópios e de famas, 1964)
Escrito por Gustavo de Castro às 11h37
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NA LIVRARIA
Vi que eram amantes: estavam com aquele ar insuspeito de amor nos olhos. Parece que tinham colocado azeite no olhar tamanha a viscosidade do riso no viso de cada um. Tinham a alma grudada, mesmo à distância, ele na prateleira de poesia, ela na de literatura estrangeira. Fiquei de longe - voyeur - fotografando os dois, fingindo ler Jorge Luis Borges em alemão. Pior é que não sei nada de alemão, muito menos do amor, mas do amor tenho ânsias de aprender, já Borges em alemão pode esperar um pouco.
Vi no exato momento que ele pegou o exemplar do Drummond na prateleira e pareceu ter achado um poema exemplar, que convinha àquele momento de amor entre amantes. Aproximou-se dela arrastando os pés. Aproximou-se a ponto de respirar sua pele e leu Drummond com voz de silêncio aveludado. Ela fixava os olhos no nada, e o brilho que exalava irradiou todo a seção de literatura estrangeira. Depois de ler, ele fechou o livro e sairam de mãos dadas, apressados de amor, ensebados daquela irresistível vontade de poemar um ao outro.
(para Elianne, que amou Drummond de verdade)
Escrito por Gustavo de Castro às 21h50
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