SOBRE A AMIZADE
Se tem uma coisa de que gosto na vida é de conhecer gente nova. Talvez o mais certo a dizer seja que, tanto gosto de conhecer gente nova, quanto de conhecer as pessoas de novo.
Lembro de ter aprendido a conhecer a mesma pessoa, todo dia, com um frade, frei Angelino. Ele dizia que o costume de todo mundo é o de congelar opiniões. Fulano é assim, beltrano é assado e pronto: congelaram você dentro de uma moldura. Então, um dia, no meio de uma alegria que não me lembro agora, Angelino arrematou: "Gosto de conhecer o novo e o velho, todo dia".
Aquele negócio me intrigou tanto, que fui treinar o olhar.
Conhecer gente nova é descobrir a pessoa, como quem acha uma pérola no meio do oceano ou uma chave na areia da praia. Enquanto que, re-conhecer gente que você conhece, é mais "desencobrir" a pessoa dos véus que traz consigo. Angelino dizia ainda que, melhor do que descobrir uma pessoa nova, é ser descoberto por ela e valorizada e estimada.
Ninguém descobre ou desencobre mais ninguém hoje, porque todo mundo está apressado demais. Para fazer isso, tem de pôr o olho a vinte por hora; aquietar o coração e a palavra, sobretudo, abrir o ouvido e a surpresa para o outro.
Como é bom poder olhar o velho amigo como se ele fosse um novo amigo. E como é bom poder olhar o novo amigo como se ele fosse um velho camarada. Talvez a amizade seja mais do que o amor, mas duvido que, quando o amor e a amizade se unem, duvido muito que haja amor maior.
Se houver, me avisem, ando à cata das grandezas e das alturas, como quem busca um amor no céu.
Escrito por Gustavo de Castro às 12h39
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SOBRE O CARNAVAL DO ESPÍRITO
Ano passado o meu carnaval foi na avenida acompanhando um bloco de formigas dispersas. Elas não eram muito animadas e, para o meu gosto, ordeiras demais para uma época como essa. De qualquer forma, pelo visto, este ano, não vai ser muito diferente: o meu carnaval vai ser no bloco do João Bobo, do Tico-Tico e do Azulão.
É que eu e alguns amigos compramos um pedaço de floresta no alto de uma colina, em um lugar - em algum lugar - chamado Laje da Jibóia, a um quilômetro da divisa entre o Distrito Federal e Goiás. Lá, estamos construindo uma pequena utopia cercada de verde por todos os lados, com um rio atrás e um vale no horizonte, para onde correm, dizem, todas as águas. Tenho passado longos dias neste lugar perdido, apenas abrindo picadas, trilhas, a margear seus limites, ora cavando buracos para estacas, ora campeando o olhar na densidade da floresta.
Comigo está um mateiro, João Carlos, mais conhecido como Carlinhos, que vai me ensinando sobre os passarinhos do lugar: o João Bobo, o Tico-Tico e o Azulão são alguns que conheci esta semana. De todos eles, gostei deveras do João Bobo, que tem esse nome porque deixa você chegar bem perto, bem perto mesmo, e fica te espiando com o mais puro dos olhares que já vi.
É por este motivo que vou brincar este ano no bloco do João Bobo: quero treinar o meu olhar para que ele fique tão puro quanto o daquele passarinho.
Escrito por Gustavo de Castro às 11h01
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