ENGAIVOTADO
Amanheci com vontade de voar sobre geleiras e montanhas nevadas, de dispor minhas asas em lugares isolados, tomados de branco e silêncio marítimo.
Amanheci engaiolado de liberdade. Com vontade de voar solitariamente entre paredões escarpados, vendo a pedra fria impassível e alta em sua fortaleza de pedra. Vontade de ver do alto as corredeiras dos rios, os filetes d'água respingando a vegetação; o vento gemendo, respirando a virgindade das árvores que tocam com seus dedos as brumas do céu.
Meus olhos amanheceram plenos de montanhas desabitadas, que visitei - uma a uma - com a dignidade das gaivotas livres.
Suspenso no ar, construo o meu castelo de sonhos com a brita das felicidades minerais.
Nas muralhas e pontes-levadiças do castelo-do-alto, a gaivota te espreita: - Que vôo escolhes diariamente em teu café da manhã?
Escrito por Gustavo de Castro às 14h16
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SOBRE A MÚSICA
Chego na faculdade e a música está no ar. Uma professora, Selma Oliveira, dá um curso de História em Quadrinhos e usa como metodologia a música para crianças, especialmente a de curumins, com CD gravado pelas crianças guaranis. Ela aumenta o som, coloca os alunos para desenhar. Depois coloca cantigas de roda, em seguida, o canto-oração dos pajés americanos, diante do fogo e da noite. Todos na sala desenham. Vou até a porta da sala de aula e fico admirando a mudez dos meninos (univesitários) desenhando na página em branco. O som faz a atmosfera do lugar ficar sagrada.
Na mesma hora que este som domina todo o ambiente da faculdade, como que extasiando todo mundo, aparece (súbito) uma máquina furadeira e um martelo e uma picareta, dos operários que reformam as paredes do banheiro da faculdade. E os sons se misturam de forma contraditória e irreversível. Mas ninguém reclama, ninguém pára de desenhar, como se fizesse parte da natureza da luz a noite do martelo.
Os sons brutos e os leves se confudem então afim de mostrar para nós que o inferno e o céu coabitam mesmo o universo das esferas.
A música é necessidade e intensidade. Nada mais. É preciso mais?
Escrito por Gustavo de Castro às 11h22
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