TRÊS FORMAS DE ABAIXAR
A primeira forma é abaixar para cheirar a flor. Fechar os olhos antes e apalpar a narina nas pétalas, semelhante a esfregar um vento noutro.
A segunda forma de abaixar é abaixar a crista. "Menos, meu amigo, 'menos', que não estás com esta bola toda." Baixar a crista porque no terreiro da Vida cantam outros doze animais. (E entre eles está o burro. O famoso jumento).
De vez em quando, quando o burro vai dar coice, declina as orelhas. Quem então aguenta o coice da Vida, não despreza o difícil e as solidões. Cai, levanta e vai pra cima do bicho como quem quer cavalgar mesmo assim.
A terceira forma de abaixar é o exercício do abismo: de vez em quando, observar vendavais. Ficar de pé no abismo, bem na beirinha, bem na beirinha. Depois, com a boca, soprar bem muito, soprar, só para ver o que sai de nós realmente: vento nada suspiro...
(Ainda prefiro os suspiros às cocadas).
Escrito por Gustavo de Castro às 20h00
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O ALEGRE-TRISTE
A sentir a inocência vi que são muitas: existem as inocências pela fé: são os que acreditam em alguma coisa; outros são inocentes por não terem fé nenhuma, enquanto alguns são inocentes apenas por não terem coragem de opção. Existem os que são apenas pelo fato da graça-de-rir-como-criança, mesmo depois de adulto. Foi o que escrevi dias atrás.
Mas escrevi hoje para falar de um outro tipo.
Esse tipo de inocente não sei ainda como nominar. Ele é meio-alegre-meio-triste; acho até que vê graça na sua desgraça. Gosta de olhar o sol se pôr pelo fato de lembrar as manhãs que viu nascer.
É irmão dos que sofrem sendo capaz de porres memoráveis. Bebe cachaça achando que é água. Coisa de gente inocente.
Acho que esta raça de inocentes conhece um pouco o mal também, sabe da escuridão dos estados de infância.
Talvez seja do que este tipo de inocência deve ser chamado: inocência alegre-triste, menina-velha, crepuscular, ingenuamente "cachaceira".
Escrito por Gustavo de Castro às 16h46
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