NOTÍCIAS DO JAZZ NA PERIFERIA
Abro a janela pela manhã e ouço o som de um sax. Não reconheço a música, mas sei que alguém está estudando jazz. Pelo visto, o novo vizinho chega trazendo suas tristezas desafinadas. Talvez seja um estudante de música, apenas. Aproveito o som melodioso do sax para acender um incenso.
É quando o Feiticeiro entra no quarto e pergunta logo porque não acendo uma caixa inteira de incensos. Penso dois segundos e decido ver no que dá acender logo nove ou dez palitos perfumados. Nunca havia me passado isso pelo cabeça antes. Incenso era para acender um por vez, não todos logo assim. Mas, como nunca havia feito, decidi ver no que dava esse experimento.
O motivo de gostar de acender um palito por vez era o de ver bailar aquele fiozinho de vento oscilante, ora em espiral, ora em linha reta turva ascendente. Acendo então os dez palitos sob o olhar do Feiticeiro que, neste momento, sorri. O Feiticeiro tem o olhar doce, azul-verde sorridente... Como todo bruxo, quer ver o encantamento brotar dos póros da vida. Neste momento, sei que ele quer ver o que vai acontecer quando eu acender o dez palitos iluminados.
Então eu acendo.
A grande chama de perfume logo toma conta do quarto: ventania fina de aromas, pequena fumaça gigante: turíbulo feito de filetes humildes.
Balanço os palitos no ar distribuindo o aroma, corro o quarto ainda sob os olhos do Feiticeiro. Aos poucos, uma neblina serenojovial toma conta do ambiente: há silêncio no espaço apesar do jazz que vem de fora.
Amparada de arpas e sinetas, a neblina começa - lenta - a dançar...
É quando o jazz da periferia, o sax do estudante, a presença do Feiteiceiro, os dez palitos dançando perfume, faz sentido.
Às vezes, para aumentar a própria força, não precisa muito. "Beleza e fé", diz o Feiticeiro antes de desaparecer na neblina.
Escrito por Gustavo de Castro às 10h52
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