APORIA DO AMOR E DA POESIA
Na poesia e no amor, o que conta de um lado, conta igualmente do lado contrário. No amor e na poesia, ninguém tem razão.
Escrito por Gustavo de Castro às 22h20
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O QUE SE É
A contemplação diária das alegrias. O murmúrio noturno das gias, dos grilos e das corujas. O passeio matutino a Urano, Plutão e Saturno. O vento nos cabelos da manhã. A noite a regurgitar a aurora. O veneno sutil dos bons. A calma ternária do triângulo. A base abaixada do quatro. O sono elevado do ninho. A fonte a engolir claridades. O salto da criança anã. O riso arremessado em flor. O buquê abraçado ao peito. A vida-rala à cata do amor. O cego que guia o cão. O homem que desfaz a barba. O padeiro que apanha do pão. O aviador na cadeira-de-rodas. O fraco que aprende a gritar. O pastor desgarrado das ovelhas. O vigilante do sol que se foi. O canto que não fala ao cantor. A música que não entende o palco. O papel com tinta sem cor. A mulher que se perdeu da menina. A paz sem paz da ternura e do vigor.
Dos muitos caminhos da vida, querer muito o que não se pode é, por vezes, não dar valor ao que se tem. Mas querer muito o que se pode é, por vezes, dar valor ao que se é.
Escrito por Gustavo de Castro às 11h16
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O CAROÇO DA VIDA
Cuidar da poesia-de-dentro.
Poesia é aquilo que a gente vive dentro. Não o que vive fora. Poesia é um modo-de-ser, não um modo de escrever. No fundo, não é performance. Não é nada além da plenitude do vento. Talvez um micro modo de estar na vida, um sopro-livre, talvez insconstante, permanentemente aberto.
A poesia é algo que se vive dentro. O poeta é aquele que vive lá - no labirinto - perdido de imensidões, vestindo espinhos e almas. Cuspindo (ternamente) as fezes de seu coração. A cada verso, um minotauro. A cada passo, dois desertos.
Já não há motivo para escrever, senão o de escrever a essência do viver. Viver então o adentro.
Mas haverá, em algum lugar, o afora?
Escrito por Gustavo de Castro às 17h12
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BRASÍLIA A SOL E LUA
Hoje cedinho, em Brasília, na parte oriental do céu, a lua cheia estava ainda alta e clara. Na parte ocidental, nascia o sol. Podia ver quem tivesse olhos: lua cheia e sol encontravam-se frente-a-frente. Súbito sentia-se a calmaria do céu promovendo este encontro inusitado, tão cedo. Tive a impressão de ver a lua sorrir e o sol pedir perdão. Cravei meu remo então no rio do céu para espiar melhor. As nuvens eram finas, traziam a poeira da noite, ninguém ainda havia acordado na manhã calma e triste de segunda-feira. Brasília nascia amanhecida de frio. O teatro sacudia sua lona, ia começar tudo de novo... Um novo espetáculo, uma nova distopia. Mas a cidade, no fundo, não ligava para isso. Tinha dentro de si arvorescendos. Pedaços de Natureza por toda a parte; acenos verdes sob copas nevadas.
É, acho que só a poesia salva Brasília. Digo hoje pelo menos isso: o sol e a lua cheia face-a-face a nos fazer olhar para o que realmente importa. E como a poesia não salva nem a si mesma... Brasília também se perde no infinito do céu, no sul de si mesma.
Escrito por Gustavo de Castro às 07h45
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