POEMA PARA UMA DESCONHECIDA
O pedaço da Azaléia gritava: "pois que sois o quinhão arremessado à vida!" - "pois que sois o quinhão arremessado à vida!"
Foi quando os seixos de azedume apareceram de repente. A pata-de-vaca em flor, o pinhão-roxo, a alfazema, a carqueja, todos gritavam:
Sois chá verde tarde sois chá mate sempre!
E ninguém entendia nada.
Os que gargarejavam rosas ao gengibre e mel lançavam-se lancinantes à cata de avelâs.
E ninguém entendia nada.
Por fim, foi a folhagem fresca quem gritou: "botão flor botão és quinhão arremessado à vida!"
E ninguém entendia nada.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h42
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CIGARRO ÓRFÃO
Tenho dificuldade de mundos:
arrasto sofás, aprumo piões,
lavo a louça de três feições,
arrumo a cama mijada.
Tenho tristeza de mundos:
deixo os mortos em paz,
confiro o jogo errado da loteria,
colho silêncios de orfanatos.
Tenho esperança de mundos:
ensaio um poema longo,
arrasto pés nas nuvens,
acendo
cigarro órfão na boca valente.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h11
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O QUE AS COISAS TÊM DE POESIA
A forma de falar sobre uma coisa
é o que faz a coisa ser.
Assim se falamos pedra
pedra será. Se falamos dor
dor será.
Mas, em poesia,
se falamos pedra,
falamos dor,
se falamos dor,
podemos estar falando
é de amor.
DESPERTAR NA MADRUGA
Gosto quando isso acontece comigo: acordar no meio da noite com palavras ocas na cabeça. E escrever o que vem do fundo do sono, igual a quem ouve velhos locutores de rádio na madrugada.
O poema que me acordou na noite é de rima infantil. Pois que venha, linda criança.
A cela prende
a nuvem
em seu voar.
Mas a nuvem
força a grade:
tá prestes
a se safar.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h53
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