NOS OLHOS DA LUA CHEIA
Conserva teu candeeiro desperto
em fogo de noite. Conserva
teus humores decerto
em água de fúria
em banho de mel.
O que sabes
do além da luz
do aquém do céu?
Escrito por Gustavo de Castro às 13h31
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NENHUM DIA SEM POESIA
Em Brasília, A Escola das Nações, está com o projeto "Nenhum dia sem poesia". Do primário em diante, em cada sala de aula, há um mural no qual os alunos adicionam poesias feitas por eles e por autores diversos. Além disso, todos os dias, os pais dos alunos recebem, por e-mail, um poema.
E tudo vai terminar no dia 10/5 com a feira do livro da escola. A escola está convidando vários poetas e escritores para irem até lá, lerem os seus versos e falar com as crianças. Eles também estão convidando avós, tios, tias etc, para irem recitar poemas ou contar histórias.
Outro dia, a poeta Lília Lustosa encontrou seus dois filhos, um de 8, outro de 6 anos, tentando, cada um, escrever o seu próprio poema. Sem interferência dela, João Pedro, de 8, e Nina Lustosa, de 6, escreveram os seguintes versos:
O deboche
Ele debocha de você e você debocha dele.
Quem debocha de quem?
João Pedro - 8 anos
Sobre a Páscoa
Eu não sei porque ninguém sabe o que a Páscoa significa.
Pois eu sei. Foi porque o Jesus morreu na sexta e nasceu de novo no domingo.
Obrigada por lerem este poema.
Nina - 6 anos
Escrito por Gustavo de Castro às 16h45
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MARINHEIRO
Tive quarenta barquinhos de papel lançados ao mar.
Em todos eles segui rumo a desertos:
Em Atacama, naveguei as chuvas.
No Saara, mergulhei-me símbolos.
No Sertão, bebi riacho até acabar.
Com meus quarenta barquinhos de papel
Naveguei mil corações.
(Porque ou ser mil vezes corações
Ou não ser coisa nenhuma).
Com meus quarenta barquinhos de papel
Ganhei todas as guerras
Descobri todos os continentes
Pacifiquei todos os povos.
Fui ao fim do mar.
Quando minha frota foi ao fundo
Finalmente
Descansei azul
Mil corações.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h24
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CAMINHOS DE FLORESTA
Volto às colinas da Laje da Jibóia para passar um dia inteiro no mato. Chego cedo, caminho sozinho com um cajado improvisado dos galhos de madeira cortada. O dia está lindo. Faz sol intenso e há muitos passarinhos. Logo passam três araras azuis voando. Fico a zanzar de um lado para outro da floresta até chegar numa pequena grota. Do meio da mata, surge uma composição de pedras altas, cheia de musgos. Dali, vejo um filete d'água cair dois metros, formando uma pequena piscina. Logo em seguida, mais a frente, a piscina desemboca sobre outra parede de pedras, fazendo surgir outro filete de água, que cai novamente dois metros. Páro e contemplo demoradamente o lugar. Não há nada a não ser a floresta com suas árvores que ser erguem 30 ou 40 metros acima das minhas idéias; as pedras úmidas que guardam o segredo dos tempos; os filetes, as pedras, o córrego que desce colina abaixo em seu múrmurio aquoso. Sentado numa pedra alta e fria, fecho os olhos por alguns instantes para ouvir a música da mata.
Do nada, no meio desta tranquilidade, surge um homem caminhando. É um mateiro. Vem devagar, bêbado, pela floresta. Ao me ver, pára, acena, diz que vem em paz. Noto que o homem tomou todas. É domingo, afinal. Seu nome é Edilirson. Baiano, como é mais conhecido, está nestas bandas buscando seus sonhos: é cantor, diz, mas trabalha em qualquer coisa. Neste momento está capinando mato. "Tomou uma?", pergunto. "Uma não, tomei dez", responde. Ficamos rindo. Contou que foi vender uma bicicleta, mas o comprador, antes, ofereceu uma pinga para ele tomar. Ele foi bebendo, bebendo, até descidir ir embora. Foi quando o comprador perguntou pela bicicleta. O baiano então respondeu que havia desistido de vender. "Queria vender a bicicleta para tomar umas. Mas agora que tomei, desisti". Ficamos a rir, novamente.
Baiano então diz: "Viver sem dinheiro é viver torto. Como um bêbado". Fico calado pensando nas suas palavras quando ele decide ir embora. Nos despedimos sem cumprimentos. Apenas acenos.
Fico-o observando seguir com seu andar trôpego, que logo desaparece entre as árvores.
Volto o meu olhar para a floresta e o rio que a corta. Vejo que o córrego também segue torto e só pela mata, como Edilirson, o baiano.
Escrito por Gustavo de Castro às 18h40
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