O HOMEM-LISTRAS
Vejo um homem caminhando pela rua vestido de listras. Calça e camisa listradas na vertical: o homem-listra nem percebe os seus traços no espaço. Num mundo onde todo mundo quer estar na moda, combinando com tudo, este homem-signo não está preocupado em seguir o modelo. De tanto fixar nele o meu olhar, achei, ao final, que aquele homem tinha sido dominado pela lógica dos códigos-de-barra. Mas logo vi que isso era idiota de pensar. Aquele homem-signo era simplesmente uma forma de exclamação estética à vida!
DUAS FRASES DO VELHO CIPRIANO:
Sobre o amor:
Até as pedras se encontram.
Sobre a necessidade de encarar a dor:
A dor que acompanha a carne
faz queimar o coração.
Escrito por Gustavo de Castro às 18h00
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EXPERIÊNCIA ESTÉTICA
A linguagem é um refúgio, um abrigo, uma morada. Talvez ela seja mais silêncio, hiato, pausa, contemplação: "estado de ânimo musical". Música calada que invade e ressoa em todas as esferas da vida.
A imagem muda, a palavra muda e o canto mudo: três formas de fazer poesia. Três caminhos em direção à beleza.
Dizem que o amor é um diálogo feito de sussurros. O silêncio dos amantes é outra forma de dizer "eu te amo". Sua forma sublime.
Na poesia, em que o que conta é o silêncio, o amor é sempre outra forma de aceder o mais profundo: a dimensão vertical - aquela que nos faz cair para cima (ou para baixo), mas que nunca nos deixa em paz. O papel do amor é o mesmo da poesia: levar o homem ao limite da língua.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h34
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SOBRE O SUBLIME
Há um ano e pouco venho escrevendo alguns poemas por cá com o deleite da graça.
Durante muito tempo, esses escritos me pareceram apenas a porta de entrada para o dizente: a importância do esquecimento de si para encontrar alteridades diversas; a importância do sublime como forma de se conectar novamente às esferas do aberto; a importância do silêncio como atividade de autoconhecimento, se é que autoconhecimento importa. Mas agora penso que estes escritos querem dizer um pouco mais além da razão-poesia.
Querem dizer também que, quando os relâmpagos da escrita vem e vão, infundem o estado de ânimo musical, a secreta disposição a encontrar algo pelo que valha a pena viver. Se o leitor sabe responder prontamente aos enigmas de sua poesia-de-dentro, espero então que saiba também enfrentar guerras caminhando infernos.
No fundo e sobre o abismo, ou somos destruídos ou nos enraizamos e crescemos.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h22
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