LIÇÃO DE UM SOFEJO DE NUVENS
Hoje vi a respiração do vento. Ele respira que nem nós. Alternando alento e desalento. Quando inspira ele é Nada. Quando expira ele é Nuvem.
FOGO E POESIA PARA O JANTAR
Noite espia Fogo jogar na cara de Poesia a sua inutilidade.
Poesia chora a árvore cortada; Fogo liberta o gato cego; Poesia dá leite para o beija-flor agreste; Fogo faz aniversário de ano do filho; Poesia todos os dias sai para nadar; Fogo não é muito chegado n' água; Poesia rosna rosas vermelhas; Fogo as tem no sangue; Poesia cala mais que fala; Fogo crepita música e amor;
Fogo e Poesia vão assim se tramando; se fazendo um só cordão azul
nó incadescente
cordão encarnado.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h07
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O SUÉTER PRETO
Nem sei como alguém poderia ter um sonho assim, mas o caso é que, desde os 10 ou 11 anos, eu já sonhava em envelhecer. Não se tratava de ficar adulto, mas de ficar velho. Ancião mesmo.
Não me perguntem de onde vem esse sonho porque eu mesmo não sei dizer. É algo mais forte, além-de-mim.
Digo isso porque nos últimos dias, caí de cama com uma febre que chegou perto dos quarenta. Delirava, febril, chamando a toda hora por nomes santos, na esperança de conforto. Num desses delírios, eis que me vejo velho, velhinho, sentado numa cadeira de balanço a ler alguma coisa. Lembro de estar vestido com um suéter preto. No lugar, tinha muitas plantas, sobretudo samambaias que caiam em cascatas. Não lembro o que lia, algo em mim diz que era Emily Dickinson, mas não posso garantir.
Ao amanhecer do dia seguinte, saio caminhando até a farmácia para comprar um medicamento. Visto o meu suéter preto, o mesmo do delírio-sonho. Vou quase que me arrastando pelas ruas tranquilas da QNC 09 onde moro. No caminho, cruzo com um velho, mais ancião do que eu no meu sonho. Ele anda bem devagar, mais lento do que eu, em seus passos sem pressas. Tem as mãos para trás. Ao cruzarmos na calçada nos olhamos com olhos de espelho.
O velho vestia um suéter preto igual ao meu.
Tomado de susto e espanto, parei de caminhar e olhei para trás. O velho seguia em frente. Senti que nem sempre estamos preparados para os sonhos que temos. Que, quando eles se anunciam em espelhos, é como se a vida revelasse tudo o que não sabemos de nós mesmos.
Há sonhos que temos e há sonhos que desejamos. Esse sonho sempre foi mais forte do que eu. Ele me veio sem que eu desejasse. Simplesmente me tomou. Sendo assim o cultivo, educando este velho que mora dentro de mim como quem educa uma criança para um futuro que, quando chegar, será pleno de passados.
Talvez ali, na velhice, eu sinta o que é voltar a ser menino de novo e possa desfrutar uma segunda infância, e seja, quem sabe, novamente tomado por outro sonho: o de voltar a brincar de roda à beira do ilimitado Amor.
Escrito por Gustavo de Castro às 12h00
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AO SOL EM SILÊNCIO
Sento ao sol para conversar com a luz. Fico estático na cadeira apenas sentindo o seu calor. Fecho os olhos. Calo a boca e acendo os ouvidos. Um leve zunido de vento sopra do leste.
O sol canta primeiro: no deserto de cada um há uma luz desacendida. As pessoas não mais se aquecem nas fogueiras. Preferem as tv's.
Dependendo do fogo que te aquece você queima a vida diferente.
Na passagem das horas, aquecendo-se em silêncio, escuto o calor cantando outros fogos.
Aquecer-se ao ponto de não saber mais se aquele calor faz parte do sol ou se faz parte de si.
Este calor é o sol ou é a própria vida como ela é?
Luz esquecida de ser.
Amor aquecido de si.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h58
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