O amor que não é todo dor, não é todo amor.
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Milhares de sóis distantes não dissipam a noite.
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A dor que se mostra ou não é dor ou não é muita.
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As flores não são para as flores, porque não há flores para as flores.
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Na recordação de nossas coisas, nossas coisas são como um vaso de água em um mar de água.
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Vivemos as quatro estações de nossas vidas no outono de nossas vidas.
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Muitas palavras, montanhas de palavras. E amor é uma só palavra. Que pouco é amar!
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A estrela e o inseto. Nada mais. Para a estrela o inseto e para o inseto a estrela. E ninguém quer ser inseto. Que extraordinário.
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Eu, para chegar até esta minha idade, às vezes creio que necessito todos os infinitos, e às vezes, creio que só necessito um pouco de inocência.
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O homem, como está feito, pode ser o grande homem? Não. E o grande homem, se existe, não deveria ser chamado homem.
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O que somos é para algo que não somos.
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O mundo perdoa teus defeitos, não tuas virtudes.
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Deixo passar o tempo sem opor a ele nenhuma resistência.
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As vezEs que rio, se me vejo rindo, deixo de rir.
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Tuas coisas de menino, não tuas coisas de homem, alimentam tua alma de homem.
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Parece que as crianças devem sentir muita tristeza, porque a alegria, a sentem tanto!
Escrito por Gustavo de Castro às 09h24
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FELIZ LUA CHEIA
Na infância do mundo
doze homens de fogo
acenderam estrelas.
Dos doze, sete eram
raios. Dois eram sóis.
Três fogos-fátuos.
E todos dançavam
todos dançavam
a noite inteira.
Nunca mais flanelas de solidão.
Nunca mais dores e lástimas.
Nunca mais desamor.
(Tristezas já não eram tristezas).
Na infância do mundo
homens de fogo
dançam às ancas
da luz.
Escrito por Gustavo de Castro às 13h57
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CONFISSÃO MATUTA
Tem um arraiá dentro mim. Uma festa cigana que nunca acaba. A cada celebração que faço, brindo à fogueira e à liberdade. Minha irmandade é com as estrelas. De posse de tanta altura, disse para mim mesmo: comprar um aviãozinho de papel: dar piruetas na capoeira do céu; nos telhados, oscilar entre violinos, brincar zig zag entre as mudas do jardim. Voar alto / bem alto / e enquanto vôo / saltitar com as estrelas.
E a cada nova ciranda, gritar "Hei!" quando passar a Liberdade.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h56
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O ORÁCULO DOS OLHOS D'ÁGUA
Hoje encontrei um anjo e ele me abraçou: sim, o anjo me abraçou e olhou direto nos meus olhos. Vi a loucura que o anjo tem nos olhos; senti o peso de suas asas, medi na balança a sua luz, ouvi fundo o seu peito: foi quando o meu coração disparou.
O anjo tinha a luz igual a luz do sol, de modo que tive de colocar a mão na fronte dos olhos, para não cegar. Disse ao anjo: eu te amo, te respeito e te temo! Ele se ergueu bem na minha frente e, sem dizer palavra, alçou vôo em direção aos olhos d'água. Disse, antes de voar, que caminharia nas alamedas: dançaria invisível ao meu lado. Senti então meu corpo tremilicar, o coração disparou, foi embora a palavra, a garganta deu nó, ficou tudo zureta ao redor, tontura, tontura plena. Conheci - intensamente - a luz que só conhece Amor.
Sim, conheci. Mas cheguei um mês atrasado. Tem nada, não. Quem abraça o anjo, leva junto consigo o peso das asas e o fogo do céu. Quem ama o céu tem muito espaço aberto - ilimitado - para abrigar - azul - todas as formas de nuvens, tempos e pássaros.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h00
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ENCONTRO COM SAMA
Como quem faz um "x" no céu, em dia amanhecendo, encontro Samarone Lima de passagem por Brasília. Segue o peregrino sua jornada de risadas. Encontrar Sama, para mim, sempre foi rever a poesia e a solidariedade. Ficamos como sempre falando água, pedra, grama, cimento e papel. Ele me conta dos seus amores e eu lhe conto dos meus: novamente água, pedra, grama, cimento, papel.
Encontrar Samarone é como encontrar uma turma: Antônio Porchia, Roberto Juarroz, Juan Gelman, com quem conviveu, Daniel Ratón, e é encontrar também a torcida do santa cruz, meus amigos de Cuba, Salvador, Fortaleza, São Paulo, Praga, Paris e os desertos solitários do mundo. Às vezes é melhor ter amigo que ter amores. Saravá Samarone.
CANTIGA MEXICANA
"E quem não sabe dar carinho/ me dá muita pena / me dá muita lástima". (Chavela Vargas)
SOBRE A POESIA:
"A poesia não é outra classe de luz elétrica, nem receita para as farmácias e os hospitais da lógica, nem conto, entretenimento para a tertulia do café social. Como linguagem última e reveladora do homem para o homem, a poesia é obscuridade, fragmento, abissal reflexão sobre sua própria natureza."
ROBERTO JUARROZ
Escrito por Gustavo de Castro às 07h58
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