DA EXPERIÊNCIA DE SER RESTO
Por vezes acontece como agora: e a escrita vem como convulsão, vai saindo (vou escrendo), vem mais (escrevo mais), de modo que me sinto muitas vezes apenas uma máquina de copiar. A escrita é uma companhia, pelo menos para mim. Permita-me uma segunda confissão. Volto à prateleira dos diários, os de viagem e os do cotidiano e encontro frases, revejo o que escrevi.
Não sei porque, em algum momento de 1998, escrevi: "A vida como razão mistoriosa".
Dois anos depois, em um desfiladeiro na Bolívia, escrevi: "Quem não sabe parar / não pode seguir".
A escrita como acompanhante; o silêncio como aprendizado. Ambos dizendo coisas sobre a vida. Acho que me escrevo como se fosse o autor da minha história. Mas sei que não sou autor assim tão completamente.
SOBRE A PUREZA E OUTROS VÍCIOS
Viver a experiência infantil de envelhecer.
PÓ
Quando cheguei aqui, em Brasília, foi a poeira da estrada que primeiro me recebeu. Tenho portando certa intimidade com o pó. Sei o que quer dizer o vermelho da terra seca e a secura do ar. Aprendi o que é o outono vivendo outonos: a fuligem das vias e pistas, a poeira dos livros, a capa de pó sobre os carros, as gripes sazonais e as doenças respiratórias.
Aprendi sobre o torso torto das árvores de Brasília abraçando-as tortamente. E com a poeira foi a mesma coisa. Abraçei-a para aprender um pouco mais o que é ser resto.
Vindo do pó, sonho às vezes voltar a ele. Sonho a dignidade de ser resto. Ou mesmo de não ser nada.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h14
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DA EXPERIÊNCIA DE SER POEIRA I
1.
Quando juntar o meu nada com o teu
vamos erguer um castelo de ventos
e nele habitar passarinhos.
2.
Crianças têm mais a ensinar do que a aprender.
3.
Experimentas o sabor dos restos. Ficas à porta mirando a ceia alheia.
E calada vais comendo os restos que caem da mesa: as migalhas de vinagre, os sorrisos de sino que embalam cada refeição, o farelo do pão, o azeite, o salame, qualquer coisa, qualquer resto, alimenta teu coração.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h09
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ANTONIO PORCHIA (1885-1968)
Me olhas como se dissesse: não te dou nada. E lamentas porque te olho como se dissesse: não te peço nada.
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É mais flor que todas as flores juntas, uma só flor.
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Sim, eu sou por minhas carnes, mas não sou eu minhas carnes.
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De uma árvore de cem anos, olhei as flores de um dia.
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Nas vezes que falo comigo, algumas coisas não as digo.
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Quem ama a todos, ama a alguém?
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O grande amor é a consequência de nossa debilidade.
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Quem pretende se apartar das loucuras, enlouquece.
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Se o homem tivesse asas seria mais humilde.
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Um minuto muda tudo e todos os milhões de anos não mudam nada.
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A bondade não é vida.
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Quando necessito de um irmão, deus meu, quanto necessito!
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Tudo é movimento e tudo é como eu, um ponto fixo.
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Rir de não rir, chorar de não chorar: ser de não ser.
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A quietude me agita e às vezes me agita tanto que a necessito.
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Até as flores, para emanar seus perfumes, precisam morrer um pouco.
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Todas as coisas duram um engano. E um engano dura muito pouco.
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Se necessito anular-me me anulo eu e não necessito anular-te.
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Todos podem me matar, mas nem todos podem me ferir.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h38
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Um amor verdadeiro não implora.
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Pode começar mais quem esquece mais.
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Se és velho e sabes ser velho, oh, quanto sabes!
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Quando luto por nada, creio que é quando luto.
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O belo se acha removendo escombros.
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Estar com alguém verdadeiro é quase um milagre.
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O amargo, quando brota de fonte doce, é realmente amargo.
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Em meu infinito, não cabe mais que uma ferida.
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A verdade, quando a penso, não a digo.
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Detrás de uma flor, vemos alguém.
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Minhas maiores coisas alimentam três ou quatro palavras infantis.
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Vênus, agora, é uma estrela desocupada.
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A vida duraria mais se as coisas da vida não durassem tanto.
Escrito por Gustavo de Castro às 12h17
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