SUBMERGIR NAS ALTURAS
É hora de ensimesmar
para fora.
Hora de ampliar a boca
e calar. Calar bem alto
para todo mundo ouvir.
Hora de ser naturalmente
azul, amarelo, cinza-sul,
violento desvioleta.
Hora de despetalar a roupa certa,
a flor íntima, aquática, alga-mundo.
É hora de ensimesmar por agora.
Escrito por Gustavo de Castro às 18h26
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CONSCIÊNCIA DO QUE SE TEM
Não sabem a vida que recebem.
Quando percebem,
já perderam.
TEORIA DO MEIO
quem está no meio
está em lugar nenhum
Escrito por Gustavo de Castro às 12h32
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TARDE ENTRESINOS - DESCRIÇÃO DE INSTANTES
Um pássaro canta longamente na minha janela.
Depois fica 3 minutos e 23 segundos quieto, pousado na antena do vizinho.
A tarde cai.
Agora o pássaro já não canta. Pia.
Os pássaros piam e eu nem sabia.
Ouço a trilha sonora Blanc, Rouge, Blue
de Kieslowsky – violinos e cellos...
A tarde cai. Alguns amigos lançam livros em terras distantes
e fico feliz.
Agora o pássaro volta a cantar. Ouço.
Ele já canta a 7 min e 46 seg
enfezado de alegria !
mudou apenas de posição:
olhava o nascente, agora
olha o poente.
O sol deita com calma. Acendo um incenso.
Talvez o pássaro ouça a ópera de Kierlowvsky comigo.
Minha alma decide só se levantar da poltrona quando o pássaro voar. Agora os cellos entram compondo os violinos.
E o pássaro lá fora não se cansa de cantar.
Não venta, as nuvens não trabalham
apenas violinos, cellos e pássaros trabalham.
Dez minutos
Onze
Doze
O pássaro no alto da antena:
Os violinos cessam
Os cellos calam
O pássaro voa.
Escrito por Gustavo de Castro às 17h28
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CEGO JOCA
Conheci um velho no Sertão que engolia velas e depois as acendia dentro de si.
Era cego, chamava Joaquim Fagundes, conhecido como “cego Joca”. Joaquim dizia que era cisterna vazia. Erassim:
Cendo vela no interior de mim:
Oiço lata na roldana
Qui desce té fundo
Tambeando nas marge
Joaquim dizia que ficava espiando a lata ecoando no nada do lugar. Às vezes, quando a lata descia pela cisterna, o cego costumava dependurar um cininho mágico:
pro mode de espiá som e luz dialogá
Soube esta semana que cego Joca tinha morrido de velhice, dormindo em sua rede, aos 102 anos. Morava no Saco de Baixo, perto de Pureza, no Rio Grande do Norte. Soube que sua última frase foi: “Dercy Gonçalves venceu!”. Todos os seus amigos, claro, riram muito. O cego jogava com a vida igual à sua velha metáfora da cacimba vazia, que todos nós nos acostumamos a ouvir.
“Sou uma cacimba vazia, cheia d’água. Dentro dela, desço na roldana o latão da lata e, dentro dela, coloco uma vela, às vezes também um sininho mágico”.
Vá com luz cego Joca!
Escrito por Gustavo de Castro às 11h25
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SOBRE FÍSICA E AMOR
Se os opostos se atraem
Os iguais se completam.
Escrito por Gustavo de Castro às 13h26
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FRASE PARA UMA SEGUNDA-FEIRA
- Ei moço, empresta aí a sua alegria!
Escrito por Gustavo de Castro às 14h51
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QUASE INFANTIL
Dentro de pipa tem pi e tem pá
Dentro de mentira tem ira
Dentro de janela tem ela.
Dentro de eterno tem ET
Dentro de sete tem ET
Dentro de poeta tem ET
Dentro de ser tem se
Dentro de morte tem te
Dentro de mel tem me.
Dentro de felicidade tem fel
Dentro de solidão tem sol
Dentro dor tem dó
Dentro de amor tem am
Mas eu acho que é mó.
Escrito por Gustavo de Castro às 13h59
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