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ENCONTROS COM O PASSADO - DIÁRIO DE LEMBRANÇAS EM NATAL

1.

Perdão a quem lê as bobagens que escrevo. Tenho a escritura como companhia, amiga inseparável na vida. Por isso, escrevo Natal e vivo a intensidade de tê-la também em mim. Aqui, vivi até os 20 anos, quando depois saí para o Mosteiro. Fui e voltei muitas vezes, saí de casa muito cedo, aos 16, antes mesmo de sair de Natal. Quando passo hoje pela Ribeira, Centro, Rocas, Alecrim (meu bairro de nascença), quando ando pela Vila de Ponta Negra ou por Pium, reescrevo em mim, de novo, todas as lembranças. Mini-casas, sobrados, apartamentos, kits, ora dividindo o aluguel com alguém, ora só - com livros, músicas e Nadas.

2.

Deve ser porque sou romântico e bôbo que gosto de passeios sentimentais. Faço isso sempre que posso: tomo o carro emprestado e vou navegar pela cidade, ver todas as suas cores. Lembro que foi aqui, em Natal, que tomei gosto de ficar espiando o céu. Sei que você vai dizer que isso é idiotice, coisa de retardado mental, pois bem, que-o-seja, mas nunca me foi indiferente o Vento, o Mar e as Nuvens. Como os livros, os quadros, os filmes, os filósofos e os poetas também nunca me foram. Para mim, tudo isso faz parte da mesma natureza.

3.

Se vivo por aí, pela vida, meio que acampado no mundo, é porque aqui em Natal aprendi a arte de armar e desarmar barracas. Com dois amigos de escola, certa vez, caminhei por todo o litoral, subindo às praias do norte. Foi um mês inteiro caminhando, acampando, fazendo e desfazendo fogueiras, pescando. O mês em que os meus joelhos estouraram de vez. Quanta água de côco bebi naquela viagem! Darcy Ribeiro disse uma vez que devemos guardar "os momentos fortes" da vida. O que ele chamou de "Imagens de Força". É isso o que essas lembranças são para mim. Esteios.

4.

Ontem, por acaso, revi em um lançamento de livro, meus professores de faculdade: Ticiano, Albimar, Serejo, revi o quase-irmão, Carlos Magno, os amigos de sempre, Ângela, Josimey, Tácito, Mineiro, muitos colegas de graduação, como Micarla, que agora é candidata a prefeito aqui. É preciso compreender que Natal é uma cidade que tem mais político do que gente. Aqui, duas são as respirações-fortes: política e futebol. Ah, ia esquecendo uma terceira: a "putaria". Mas isso não convém a um blog de poesia. Interessa tratar aqui somente essa outra "putaria", a dos versos.

5.

Nunca entendi porque Natal cresceu de costas para o mar, sem navegadores, excessivamente voltada pro Sertão. Talvez hoje fôssemos menos interiorizados. Talvez hoje fôssemos interiorizados de oceanos e profundidades marinhas. Talvez fôssemos menos dunas, menos sêcas, menos pó.



Escrito por Gustavo de Castro às 10h43
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O TEMPO, A CIDADE E AS NUVENS

1.

Diversos vínculos e afetos me movem constantemente às dunas da cidade do sol, Natal. Chego à noite com chuva e silêncio. Meu irmão, Eugênio, vem me buscar. Como o meu pai, ele herdou o gosto excessivo pela economia, algo que beira o insano. Se meu pai costumava partir em dois os palitos-de-dentes, para que pudéssemos economizar utilizando apenas um dos lados do palito, o meu irmão conta sinais de trânsito, centavos, papéis. Anota diariamente todo e qualquer gasto. Vi sobre sua mesa uma anotação: R$ 7,90 - lanche no Bob's. Sempre que vejo algo do tipo, fico pensando como é funcionar assim. Da mesma forma que eu não entendo esta fixação deles pelos números, ele nunca entenderam a minha fixação pelas letras. Que diferença há entre um avarento e um escritor, afinal? 

Se um enconomiza numerários o outro economiza literários.

2.

Chove bastante na cidade e no mar. Fico do alto dos paredões da cidade mirando o ribombar do vento a sacudir as ondas e os meus cabelos.

3.

Passo o dia peregrinando livrarias, com Manel, meu filho. Encontro livros de poesia de autores nacionais e locais, mas são os poetas daqui, que tanto amo, ao mesmo tempo paroquianos e universais, os que me interessam. São poetas de velha herança: poesia vinda do mar e do sertão. Com alegria compro três livros: Rumores de Azul, de Maria Dolores Wanderley (Ed. Lidador); Deriva, de André Fernandes (Ed. Hedra) e Menina Gauche, de Ada Lima (Ed. Flor de Sal). Encanto-me com os versos desta última. São simples e cortantes:

Golpeia

a folha

com fúria:

 

a carne

do papel

não sangra.

 

Assim ela se apresenta: Uma ninfa e um marujo / habitam em mim. / Sinto fome / de algo / que não tem nome. // Tenho sede / de coisas inexistentes / que vivem nas pontas dos meus dedos / palpitantes / e suados // como alguém em derradeira agonia.

3.

Estou me deliciando na livraria quando entra um turista. Não identifico muito a procedência da espécie. Ele diz para o vendedor: "queria um livro sobre Pipa". Referia-se, claro, à famosa praia. O vendedor então sai em busca da prateleira. Eu mesmo fico interessado no livro pois penso em ir até lá ainda esta semana. O vendedor retorna com o livro "O Caçador de Pipas".

Eu e o turista nos entreolhamos. Ele desconversa e vai embora, eu pago com gosto o livro da poeta Ada Lima e também vou embora.

4.

Fico ruminando um livro que encontro, mas não compro: "Guia do Observador de Nuvens" do inglês Gavin Pretor-pinney (Ed. Intrínseca). É um livro ilustrado com o formato de várias nuvens. Até onde vai a imaginação do homem, tanto são os modos distintos de sopros e ventos. Fico dedilhando as páginas. A preocupação do inglês é com o efeito estufa, o aquecimento global, a influência no clima, mas o livro também tem passagens inusitadas, como quando o autor relata sua experiência em uma nuvem batizada de “Glória da Manhã”, atração turística na Austrália por seduzir pilotos de planadores e curiosos, que a surfam como se fosse uma onda.

5.

Sim, sempre achei que fosse possível surfar o céu.

6.

Pelas nuvens é possível descrever o bom e o mau tempo. Mas também, talvez, a boa e a má cidade. As nuvens e os guisos de Brasília, o cinza delas em São Paulo, as plumas galopantes de Natal, o achatamento quente-quente do sertão. Nos oito meses em que morei sozinho em Pirangi do Norte, no sul do Rio Grande, tive a oportunidade de conviver com diversos pescadores. Foram eles que me falaram pela primeira vez desta ciência. Nuvem é sinônimo da diversidade dos humores do céu: nuvem carregada e nuvem "boa" para pescar; nuvem que anuncia chuva para daqui a dois dias e, na ausência delas, que anuncia mar bravo ou perigo e solidão. Nuvem de não sair ao mar e nuvem de se perder no mar; nuvem que faz corredor de vento e nuvem que faz o mar ficar parado e denso igual a óleo. Pelo menos ali, no litoral de Pirangi do Norte, sempre chovia dois dias antes da lua cheia. Pelo menos ali, as nuvens serviam para medir a emoção do tempo e a respiração do céu.



Escrito por Gustavo de Castro às 19h59
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