CIÊNCIAS HUMANAS
Conhecer alguém é como cortar uma cebola.
Equivale a penetrar camadas de lágrimas.
Escrito por Gustavo de Castro às 01h07
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HESÍODO
Tudo o que é belo
ondula.
Vide o mar
e as mulheres.
Escrito por Gustavo de Castro às 15h44
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SOUZA FUTEBOL CLUBE
Manel, como todos o chamamos, tem 12 anos e um ídolo: Souza, jogador do América Futebol Clube, de Natal. Desde que cheguei aqui, Manel me fala do futebol como se falasse da Vida. Os lances, as expectativas, as derrotas, as vitórias remotas para quem está em último lugar na Série B, do Campeonato Brasileiro. Manel assiste cada jogo com os amigos da escola e os velhos do bairro. Esta semana, ele trocou seis dvd’s por uma camisa oficial do América com o amigo João Vitor. Manel, como bom torcedor, conhece os jogadores, as posições, a lógica das forças e dos deuses que governam o futebol. Sexta-feira passada, de surpresa, levei-o até o Centro de Treinamento do América, para ver o seu time jogar antes do clássico ABC x América. Quando ele chegou ao CT do América, deu gosto de ver a sua felicidade!
Por duas horas, assistimos todo o treino. E Souza lá, pertinho do campo. Manel, com a maturidade dos 12 anos, me olhou nos olhos e disse: “Não tenho coragem de chegar perto dele”. Entendi logo a estranha força magnética que os ídolos têm: igual a de um atrator estranho. Esperamos então Souza terminar o treino, dar um monte de entrevistas, falar com um monte de gente. Quando ele ensaiou sair de campo, eu berrei da arquibanca: “Souza!!!...” Ele olhou, fiz sinal de autógrafo pro menino. Ele disse com voz firme: “Peraí, que volto já”. E foi para o vestiário dar outra entrevista.
Manel, disse, “ele é legal, ele vai voltar; ele vai voltar...”. Esperamos dez, vinte minutos, mas Souza não voltou. Os olhos de Manel mudaram imediatamente. Algo nele oscilava entre acreditar e não-acreditar no ídolo. Era como se o sonho e a realidade travassem, naquele momento, uma partida decisiva. O menino então falou: “Vamos atrás dele!”.
Como o time estava concentrado para o jogo, fomos até a sede, ao lado do campo. De fora, podíamos ouvir os chuveiros a toda. Esperamos mais dez, vinte minutos e nada. Manel tinha consigo a caneta e a tal camisa oficial que havia trocado por seis dvd's. Perguntei se ele não queria desistir, ele disse que não, e ainda me olhou como se eu não tivesse esperança. Dali a pouco - como toda espera chega ao fim -, lá vem Souza, manso, caminhando solitariamente. Os olhos de Manel rebrilharam. E ele disse: "Eu não falei!"
Quem estava diante dele agora não era José Ivanaldo de Souza, 34 anos, natural de Assu, no Rio Grande do Norte. Quem estava lá não era o ex-jogador do Corintians, do Flamengo, da Seleção, mas o ídolo de uma geração de potiguares. Notei logo que Souza tinha plena consciência disso. Com calma, pediu logo desculpas por ter esquecido de retornar, depois, depositou ao chão a chuteira e o uniforme de treino. Sem demonstrar pressa ou afobamento, apertou minha mão e a de Manel. Olhou para o menino com carinho e assinou sua camisa: “Manel abraços Souza”. Pegou a chuteira e a camisa de treino no chão e foi embora, dizendo: "Valeu pelo carinho". Manel respondeu: "Valeu, também!"
O menino ficou mudo o resto do caminho de volta. Eu também.
Ontem, sábado (12), pode ter sido o último jogo de Souza como profissional. Na rodada passada, ele agrediu um árbitro de futebol e deve pegar 500 dias de suspensão. Se isso acontecer, como declarou, larga o futebol.
Todo jogo tem direito a seu apito final. Alguns instantes da vida são penaltis inesquecíveis. Mas, para Souza, creio que não há com o que se preocupar. Nada pode ser mais gratificante e generoso do que acender o brilho nos olhos de um menino, do que trazer o coração de milhares de pessoas à boca ou emudecer uma geração inteira de alegria!
Para Souza, que compreendeu o que é ser criança.
Escrito por Gustavo de Castro às 12h35
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