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RAZÃO-POESIA o pensamento poema www.casadasmusas.org.br
 


THIAGO DE MELO

Quando fui ver o mestre, ele já havia ido embora. Thiago de Melo voltou mais cedo para o Norte, o lugar dos homens que são lonjuras. Mas o poeta deixou o circo da poesia armado.

Aconteceu para a minha dor: quando cheguei para ver o mestre, ele já havia ido embora. Procurando por ele, driblando a multidão entre os stands de livros, encontro apenas a cadeira vazia. No auditório, até o silêncio havia ido embora acompanhando o poeta. Parada na sala vazia, encontrei sentada e sozinha Aline Maria dos Santos, estudante do Ensino Médio. Não sei direito o que ela fazia ali. Sei apenas que ela tinha uma folha xerocada nas mãos. Era um poema, escrito pelo mestre, em 1964, em Santiago do Chile. E Aline, ali sozinha, lia e relia baixinho aquele poema como bem precioso. 

Quando fui ver o mestre, encontrei 'apenas' a poesia e "os estatutos do homem". Encontrei Aline segurando entre as mãos, emocionada, o poema a seguir:  

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)


Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem. 



Escrito por Gustavo de Castro às 15h51
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BIENAL DE POESIA

Deu gosto ouvir Affonso Romano de Sant'Anna discursando na abertura da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília. Falou, entre outras coisas, sobre os poetas da sua geração e dos mestres que conheceu pessoalmente: Bandeira, Cabral, Drummond e Vinícius. Não falou de Clarice Lispector, de quem foi amigo por mais de 20 anos.

"Perguntam muito pela função da poesia. Mas creio que a pergunta está deslocada. Deveríamos falar de poesia como função: para a vida, para o pensamento, para o poder".

O que será da poesia brasileira daqui a 60 anos?, indagava. Grandes poetas, disse ele, como hoje, serão esquecidos ou desaparecerão devido a loucura pessoal, o suicídio, acasos diversos e, sobretudo, à má sorte no mercado editorial. Este mercado funciona igual à bolsa de valores: os mais cotados e os menos cotados pelas editoras. O mundo da poesia é um Butantã. Há muito veneno, muitas cobras, muitos interesses; poetas ou grupos de poetas não querem perder o domínio, a influência e a hegemonia. Depois, admitiu com serenidade: a minha geração está passando, já não somos tão importantes assim para a formação dos brasileiros. É hora de surgirem novos poetas.

Cabe ao poeta agora, segundo ele, assumir as mídias. Não cometer o erro que sua geração cometeu, de se afastar da tv, do rádio, no disco, do cd e da internet. Precisamos entender que naturalmente a poesia migrará para este espaço e que as novas gerações encontrarão aí a sua leitura. Na hora, divaguei por completo. Fiquei sonhando com um país onde assistiríamos a programas de rádio e tv de e sobre poemas e poetas. Certamente seria uma programação entre o profundo, o absurdo e o engraçado.   

A elegância e a serenidade de Sant'Anna, ao final, destoavam da presunção de muitos jovens poetas que ali estavam. Fiquei depois com a nítida impressão de que reunir poetas assim é como juntar pavões, loucos e estranhos num mesmo cercado.

De qualquer forma, como diz o Marino, em uma cidade (Brasília) que é tão maltratada pelo mau uso da palavra, uma Bienal como esta dá a esperança ligeira de que outras palavras podem vigorar por aqui. Nem que sejam palavras de desordem. Como os poemas. 



Escrito por Gustavo de Castro às 14h00
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