O MAIS SECO DOS LUGARES
Não me lembro de ter vivido um dia tão quente assim, em Brasília, nos últimos seis anos. E olha que tenho memória boa para essas coisas. Terça e quarta vimos 37º na sombra e 15% de umidade. Para quem nasceu com 80% no nariz e na pele, 15% significa aprender a arte de pescar vento.
Todos reclamam do calor. Calor de deserto, quentura-mais-que-desanimadora. Fiquei lendo nos horários de 11 às 18 horas, o pior horário, esperando o calor passar e, de vez em quando, pescava um vento cá, um desfalecimento lá.
Dizem que Brasília é uma das cidades mais secas do mundo. Não sei, também não conheço todas as cidades do mundo, mas posso garantir que, aqui, há muito de deserto, solidão, desterro e espiritualidade. Se isto está ligado aos lugares secos, posso dizer o mesmo do meu coração-sertão, o Rio Grande do Norte. Lá também é seco, mas a umidade é maior.
Dizem que foi o vento e a brisa constante o que mais admirou o poeta Manoel Bandeira em Natal. Mas Natal não é um lugar seco, ao contrário. Brasília, por sua vez, não suporta Brasília. É o poeta Nicholas Behr, tipicamente brasiliense, quem destrincha uma utopia local: a dos moradores da cidade, os nativos, expulsarem daqui os políticos. Todo mundo ri quando o Behr fala isso. Eu já acho sensatíssimo. Brasília é outra quando vista sem a mídia e a política.
Mesmo assim, Brasília é uma cidade seca, agreste per si, feita de sonhos e cimento cozido. Aqui estão, estatisticamente, o maior número de solitários (residindo em apartamentos) do Brasil; o maior número de habitante/computador pessoal; o maior número de leitores per capita do país; o maior número de pessoa-árvore das capitais e também o maior número de habitante-pet shop para cães e gatos. Também, certamente, o maior número de corrputos por metro quadrado.
Todas estas atividades "maiores" de Brasília indicam que a solidão e o perigo rondam este deserto, este desterro, este mais-que-fim-de-mundo-lugar.
No fundo, quem tem coração-sertão sente o que Brasília quer ensinar: no fundo, todo lugar é fim-de-mundo!
Escrito por Gustavo de Castro às 18h51
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ANTONIO CISNEROS, ALICE RUIZ E JUAN CARLOS RECHE
A música da poesia cantou novamente aos ouvidos. Assisti Alice Ruiz ler seus poemas para uma pequena platéia, no Museu da República. Ela estava emocionada. Reencontrava naquela tarde-noite o poeta e amigo Reynaldo Jardim, depois de muitos anos. Jardim, inclusive, é uma história a parte. Lá pelas tantas, Ruiz recitou Socorro, letra que virou canção dos Titãs, depois de muitos outros:
Socorro, eu não estou sentindo nada. Nem medo, nem calor, nem fogo, Não vai dar mais pra chorar Nem pra rir.
Socorro, alguma alma, mesmo que penada, Me empreste suas penas. Já não sinto amor nem dor, Já não sinto nada.
Socorro, alguém me dê um coração, Que esse já não bate nem apanha. Por favor, uma emoção pequena, Qualquer coisa que se sinta, Tem tantos sentimentos, Deve ter algum que sirva.
Socorro, alguma rua que me dê sentido, Em qualquer cruzamento, Acostamento, encruzilhada, Socorro, eu já não sinto nada.
*
Antes de Alice Ruiz cantar para nós suas belezas, foi o peruano Antonio Cisneros quem leu alguns de seus versos. Notamos que ele batia com o pé, compassando a frase que lia. Leu como quem cantava: sacudindo ombros e almas. Cisneros é um tipo inquieto, veloz. Sem saber que era ele, cruzei com o poeta no banheiro do museu. Notei logo o seu modo agitadamente sereno. Não sei, mas acho que senti nele este claroscuro, ou algo assim, que habita a todos nós. Cisneros caminha como quem voa, melhor, como quem sabe para onde quer ir. Tem jeito de águia, olhos espertos, sorridentes, profundos. Leu para nós o poema à baleia e ao cão. Algumas imagens deste poema, acho que não vou esquecer nunca mais. O poema sobre a baleia contava de um episódio ocorrido em 1979, em Lima, Peru, quando uma baleia encalhou e morreu. No poema, ele narra como a carne da baleia alimentou naquela noite os pobres de Lima e o seu óleo iluminou alguns lampiões.
Cisneros tem apenas uma coletânea de versos traduzidos para o português, o livro chama Sete Pragas Depois (Cosac & Naify). Ele é jornalista e embaixador; professor de literatura na Alemanha, Hungria e Itália. É também um dos divulgadores da obra de Paul Celan. A seguir, outro poema, do livro Comentários Reais, de 1964.
ORAÇÕES DE UM SENHOR ARREPENDIDO
1. QUANDO O DIABO ME RONDAVA ANUNCIANDO SEUS RIGORES
Senhor, enferruja meus garfos e medalhas, estraga estes molares enlouquece meu barbeiro, os servos sejam mortos em suas camas de madeira, mas livra-me do Diabo. Com seu cheiro de cachaça e os cabelos enlameados se aproxima de minha casa, já o surpreendi caído entre os vasos de gerânios, enrugado e nu. Estou um pouco gordo, Senhor, espero teus rigores, mas não tantos. Envelheci nas batalhas, os ídolos morreram. Agora espanta o Diabo, leva estes gerânios e meu coração. Faça-se a paz, amém.
*
Por fim, foi o jovem Juan Carlos Reche, 32, para minha surpresa e alegria, um estudioso da obra de Roberto Juarroz, que tive o prazer de conhecer. Ele faz doutorado na Complutense de Madrid sobre o poeta argentino. Gostei muito de conhecer Reche, o poeta. Admirei a sua tranquilidade e elegância quando sua leitura foi bruscamente interrompida por outro poeta, pedindo que ajustassem o power point que exibia a tradução simultanea do poema. Reche foi interrompido três vezes. Ele pareceu não se importar. Sua preocupação ali era outra realmente. Jogou com a palavra com consição e serenidade. Soube fazer silêncios. Depois que leu seus versos, deixou um encanto inexplicável no ar, o auditório, depois que acabou a seção, estava mais feliz. Fui lá falar com ele e trocamos algumas palavras e dois dedos de silêncios. Ganhei um livro dele, Carreira do Fruto (Trad. Pedro Santa María de Abreu), pela Ed. Quasi (Portugal, 2007). Dei-lhe de presente o meu Arvorescendo, escrito com Florence Dravet, em 2005. O poema que transcrevo a seguir está no livro acima e chama "Disse-lhes para me deixarem".
Disse-lhes para me deixarem,
se tiver que chegar, chegarei,
que já basta ser
a pessoa que anda comigo.
Estou a mimar a rosa
das folhas de lírio
cosidas com a seiva da rosa,
estou a criar a rosa
que se ri de Saussure.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h27
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