DIA A DEZ REAIS
Ouvi no ônibus hoje pela manhã o depoimento de Thiago, o "mineirinho". Acabou de chegar em Brasília, onde veio para estudar. Faz física na UnB, veio do interior de Minas, do sul, acho. O garoto tem olhos espertos, está no primeiro ano de faculdade e sorri por qualquer coisa.
Engraçado é que conto isso, mas não cheguei a conhecê-lo diretamente. O que descrevo aqui é fruto do que ouvi ele dizer aos colegas, no ônibus, hoje pela manhã. Ele perguntava onde ficavam os cartórios e os hospitais da Asa Sul, e todos os colegas apontaram na mesma direção. Foi quando ele sorriu, novamente. Mineirinho sorria por tudo. Mesmo.
Estava eu lá sentado lendo o meu livrinho no ônibus, quando começa o assunto. Perguntam como ele está vivendo em Brasília. E ele, sorrindo novamente, disse: "A dez reais por dia". Fiquei curioso com aquilo. Todos tiraram sarro da cara dele. Ele então sorriu, novamente. Aquela quantidade de sorrisos na sua face era algo instigante para mim: ou era nervosismo ou era felicidade mesmo. Thiago (presumo que escreva assim e não Tiago), diz que vivia apertado, mas que estava feliz. Estava se sentindo livre. E, realmente, não parecia triste. O meu detector de infelicidades não localizou nada nos seus olhos.
Thiago descreveu a sua ode diária com dez reais. Como fazia para almoçar e jantar, as caronas, os lanches baratos (como esfirras, pedaços de bolo e pães), de como também andava a pé, para todo lado, fazendo longas jornadas nas terras vermelhas daqui.
Quando comecei a ouvir a sua história corri logo para o diário, para anotar. Mineirinho falou que estava buscando uma monitoria, tentava uma bolsa. Para economizar os seus dez reais, contou um segredo. Disse que o segredo da sua economia era ficar parado, lendo, na biblioteca. Achei aquele método sensacional.
Passava o dia na biblioteca do campus, lendo e estudando. Quando batia a fome, tomava água ou simplesmente dormia encostado na mesa. Tentava, dizia o garoto, levar o seu almoço mais próximo ao horário do jantar, isto é, tentava almoçar bem tarde, de modo que tivesse apenas uma refeição básica ao dia, adornando as outras refeições com lanches e engana-estômagos.
Quase me levantei da cadeira para falar com ele. Sei lá o que diria a ele. De qualquer modo, não esqueci mais, durante todo o dia, daquele garoto. Ele talvez nem sabe a força, a disciplina e a determinação que tem. Sei que tem gente no Brasil que vive com menos dinheiro ainda. Mas não é fácil ser estudante e estrangeiro em um lugar e ter de dar conta da sua vida, sozinho, vivendo assim pelo mundo.
Escrito por Gustavo de Castro às 16h47
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NOVE FRAGMENTOS PARA UMA TEORIA DA INSIGNIFICÂNCIA
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia.
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para a poesia.
Terreno de 10x20, sujo mato - os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para a poesia.
Um chevrolé gosmento
coleção de besouros abstêmios
o bule de Braque sem boca
são bons para poesia.
As coisas que não levam a nada
têm grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima.
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou no geral.
O que se encontra no ninho do joão-ferreira:
caco de vidro, garampos
retratos de formatura,
servem demais para a poesia.
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
águas, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia.
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para a poesia.
(Matéria de poesia, Manoel de Barros, 1999).
2.
"As coisas sem importância são bens da poesia" (idem).
3.
Manoel de Barros nos leva à visão da palavra desacostumada, àquela que não se deixa aprisionar pelo significado. Chama atenção para as desinportâncias, as “ignoranças” e as insignificâncias como elementos essenciais à sua poética e à sua cosmovisão. Neste sentido, as coisas mais insignificantes são, apenas aparentemente, as que se escondem do primeiro plano do nosso olhar, as que não ganham visibilidade imediata, seja da mídia, seja dos vigilantes de sentidos (geralmente os acadêmicos). Ao fazer das coisas desimportantes o seu cosmos, o poeta, no fundo, dá outra importância a elas. Ele desencobre seu real valor pela palavra poética.
4.
"Como alguém poderia manter-se encoberto face ao que a cada vez já não declina?" (Heráclito - Fragmento 16).
5.
Declinar, no sentido grego, é desaparecer da presença ou, como quis Heidegger, é "adentrar o encobrimento". Declinar é inclinar-se para o poente, deitar, sair de cena, sumir.
6.
A insignificância como estética, o nada como presença, o estado das coisas sem importância como matéria primeira da poesia, em certo sentido, as coisas mínimas ou anônimas, as que não estão em primeiro plano, como dissemos, mas que assumem o sair de cena como eixo, são as que nos interessam aqui. A sentença de Heráclito pergunta: como alguém pode se esconder daquilo que nunca declina? Este paradoxo é o que funda as condições de possibilidade desta teoria da insignificância, inspirada no Manoel de Barros. O importante (pelo menos para a poesia) não está naquilo que consideramos significativo, mas no seu contrário.
7.
Heidegger formula a questão de Heráclito de outro modo: “Face ao que nunca declina ninguém pode manter-se encoberto.” Como alguém pode esconder-se diante daquilo que nunca sai de cena? Ao olhar o banal e fazer do ordinário a sua fonte originária, o poeta transcende a linguagem, de modo que o sublime e o extraordinário também podem ser encontrados na simplicidade e nos elementos (coisas) aparentemente escondidos ou encobertos da vida.
8.
De Heráclito conta-se a seguinte estória. Diz-se que, certa vez, estranhos chegaram a sua casa para saber o que fazia o poeta-pensador. Ao entrarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Ali permaneceram de pé, impressionados. Encorajando-os a entrar, Heráclito teria pronunciado as seguintes palavras: “Mesmo aqui, os deuses também estão presentes”.
9.
Mesmo ali, perto do forno, na cozinha, também é possível encontrar o sublime. Os homens se espantam de como o renomado pensador estava ali, simplesmente sentado, observando o forno caseiro. O pensador os incita a adentrar e a perceber também ali (no banal) o extraordinário ("os deuses"). Mas quem, como Manoel de Barros, é capaz de perceber a significância das coisas insignificantes? O poeta fala que é necessário "perder a inteligência das coisas para vê-las". Quem é capaz de admitir e entender quando ele diz que "o que é bom para o lixo é bom para a poesia"?
Escrito por Gustavo de Castro às 13h21
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