REFAZENDO A FRASE DE ALGUÉM
Não ser discípulo de ninguém. Mas ter muitos mestres.
Escrito por Gustavo de Castro às 20h34
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MANOEL DE BARROS, A PRIMAVERA E AS MONÇÕES
Aos poucos, indo e partindo, aparecem as chuvas. Chegou a época das monções: chuvas contínuas que trazem a sazonalidade do tempo: galochas, casacos, luvas, sobrinhas e sombrios guarda-chuvas negros, por toda parte. Com as chuvas também reaparecem as hortênsias, as zínias, as tulipas e as azaléias. Brasília fica charmosa como um tango, igual milonga de amor. Tudo muda: a natureza, os homens, as faces, as ruas e as importâncias. O vento frioso e cinza, já percebido por qualquer gato menos peludo, anima todas as securas e cegueiras. Os pássaros cantam mais, as flores voltam às janelas, as falações dos populares migram sorrisos. Por toda a parte, nesta época, como os gatos, todos se aninham um pouco em si mesmo. Face todas as vigilâncias, o homem não deixa de sentir quem está por vir, ali chegando com essas chuvas. É a primavera; a primeira verdade, dizem, é a Primavera. Todas as outras verdades, dizem, vem depois dela.
A primeira chuva da Primavera, para mim, ocorreu em Taguatinga, onde moro, terça-feira passada, 16. E devo confessar que terça-feira da semana passada, 16, foi um dia muito difícil para mim: tive até de tomar água com açucar, segurar o batimento cardíaco, fazer destremer as pernas. Um amigo comum, o Paulo Alves, me colocou para falar com o Manoel de Barros, por telefone.
Fui logo dizendo para o poeta que estava muito nervoso. Ele sorriu, gentil, e disse para eu me acalmar. Daí contou uma história. "Outro dia, um rapaz veio me visitar. Chegou tão nervoso que pediu para ir na esquina respirar um pouco. Eu disse: tá certo, vá. Ele foi. Demorou um pouco, voltou, entrou na minha sala e caiu no chão. Estava bêbado, tinha bebido para aliviar o nervosismo e acabou embriagado". E rimos do episódio.
Entendo bem o medo que sentia aquele anônimo que foi visitar o poeta. No meu caso, só tomei água-com-açucar, mas tomaria uma taça de vinho antes se tivesse a chance. Conversamos um pouquinho, mas não quis prosseguir muito; eu já não tinha mais palavras. Tomei seu endereço e fiquei de escrever umas cartinhas. Felicidade também é poder partilhar felicidades. É o que faço cá, hoje, com a chegada das monções, da Primavera e da voz de Manoel de Barros neste cantinho literário de muitos nadas.
Escrito por Gustavo de Castro às 10h30
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