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PENSE NUM LUGAR GRANDE

Acabo de fazer algo inédito: é a primeira vez que publico uma foto neste blog. E que bom que seja a foto do mosteiro da Penha, no bairro de São José, no centro estreito e miúdo do Recife antigo. O mosteiro é cercado de outras tantas igrejas, todas velhas e meio abandonadas. Sem querer, por esses dias, fiquei recolhido no mosteiro da Penha, a convite dos Capuchinhos, compartilhando silêncios e pães, semelhante a quem reencontra as origens.

Pois bem, pense você num lugar grande. Pois aposto que nada do que você pensou até agora se compara ao tamanho da basílica de N. S. da Penha. O mosteiro é daqueles infinitos de pedra, labirintos de escadas e corredores, sacadas e terraços nos quatro andares, vãos que ladeiam as colunas em arco, portais de capitéis coríntios com claustros e torres e sinos erguidos aos céus. A basílica, devo confessar, é um explendor. Há muitos caminhos e descaminhos dentro dos muros deste mosteiro. Em cada uma das duas torres, escadas em espirais levam o crente ao sumo das alturas. Dá para ouvir até os primeiros silêncios. Dá para espiar o mundo inteiro. Dá para escavar nosso mais íntimo chão. Dá para ver também toda Pernambuco estendida feito rede de pesca. A visão da cidade do alto destas torres é a seguinte: dá para ver o longo porto e os navios que costeiam o mar cansado de pedra; dá para admirar as muitas outras igrejas: a dos Oratorianos, a do Espírito Santo, a dos Carmelitas, a dos Franciscanos; dá para ver o telhado sulcado das casas; dá para ver até a si mesmo, principalmente, lá de cima.

Do alto deste campanário prateado, reluzente, dá mesmo a impressão que podemos descortinar o mundo inteiro. Hoje recordo que foi do alto deste campanário que fumei os meus primeiros cigarros de palha, em dia de furor e mistério.

De lá de cima - nestes anos - vi tantas coisas: os navios, vi marés, corridas de nuvens, tempestades, noites vazias de tudo, até de sentido, aquele de ser navegante. Dali sai o Galo da Madrugada, sai o Homem da Meia Noite, blocos tradicionais do carnaval pernambucano. Dali, dá para para ouvir o mercado municipal, a feira de frutas, o povo, gente passando, gritando, um real, um real, um real... Lá daquele cimo pude sentir o povo e ficar agoniado com ele. Não sei porque, sinto essa agonia do povo ainda agora. Foi dali que fiquei a ouvir os poetas na praça em frente, a praça Dom Vital, gritando seus versos com a fúria dos profetas. E eu os ouvia atentamente. Ontem ouvi a doce e triste flauta da canção dos bolivianos. É isso: a praça em frente à basília é uma Babel. Hoje cedo, da minha janela no terceiro andar, acordei com alguém gritando a todo pulmão: um real, um real, caju e manga um real, real...

Ah, velhas torres da Penha!... Como é bom voltar a te olhar e sentir! De suas abóbadas me sinto às vezes passarinho. Outras vezes sou todo Pernambuco. 

"Entre altas torres vou cavando fundos poços", disse Juarroz. Todas as vezes que desci lá de cima, das minhas torres de sonho, encontrei a verdadeira realidade das coisas. Os fundos poços. A feira miúda e meio desencantada da vida. Estas torres ajudaram a nascer também um livro futuro, já em fase de finalização: O Evangelho da Desordem, que escrevo e reescrevo há dez anos.

Sim, queria que um dia você fosse lá, na basílica, sentir o lugar, o povo, a pedra velha dos abnegados erguida por alguns frades que despencaram de suas alturas no longo período de sua construção. Entre os seus segredos, ela esconde um cemitério antigo, com muitos irmãos menores italianos ali enterrados. Ontem à noite, fiquei calado a ouvir os frades contando histórias de assombração no velho mosteiro. Dei muitas gargalhadas. Contavam essas histórias justamente no corredor ao lado do cemitério do mosteiro, no claustro de entrada, igual a quem convive com a morte de forma simples e natural.

Fazia tempo que eu não me divertia tanto. Dei muitas risadas com o relato dos frades, cada qual contando uma história de assombração diferente. Frei França disse que ouvia de madrugada fortes batidas, pancadas vindas da nave central da igreja. Esses estrondos faziam-no levantar da cama, caminhar os corredores escuros dos salões, seguindo até a igreja. Lá, acendia as luzes e entrava caminhando, sozinho, dentro da solidão de Deus. "Podia ser um ladrão, meu filho". 

A imponência e solidão desta basílica me traduz sempre a paz, por isso estou abrindo aqui hoje, neste blog, espaço para uma fotografia.

Este mosteiro, pelo que sei já nasceu grande, em 1643, quando Recife foi erguida. Dentro deste mosteiro existem outros três, dois deles meio abandonados. A igreja está fechada, quase caindo, segundo os frades. Há dinheiro do BNDES para a recuperação da basília que o presidente do IPHAN (Patrimônio Histórico), em Brasília, não quer liberar. Até a Rede Globo já entrou na história, pelo que fiquei sabendo dos frades.

Bom, acho que você não imagina, tenho certeza, mas queria que você imaginasse a cena de um saguão enorme, imenso, vazio de bancos. Seu piso é de mármore branco-acinzentado com sub-naves adjacentes, altares à esquerda e à direita em honra a todas as forças cristãs: virgens, santos, mártires, beatas, diáconos, cônegos, monsenhores, etc. 

Contam que, desde o dia em que este velho piso de mármore velou frei Damião, os pombos do lugar nunca mais ficaram quietos. Os pombos voam mesmo assombrados dentro dos céus da basília ainda hoje. Se você a esta altura já conseguiu imaginar algo grande, muito bem, você tem então na sua cabeça uma nave ampla de beleza e calma, vazia, pois imagine, a sensação de bem estar que é caminhar e sentir esta amplidão. 

Vou parar esta minha descrição aqui porque isto já está parecendo auto-ajuda.

Esta minha falta de pressa em descrever a basílica da Penha se deve, certamente, a energia deste lugar. Há muita calma por aqui. O porto do sossego. Até os muros e as grades do lugar inspiram sossego. O refeitório, a sala interna de oração, as esculturas e pinturas, a mobília clássica e escura. Até o estacionamento do mosteiro inspira sossego. A propósito, esqueci de dizer que é no estacionamento do mosteiro que os frades realizam,hoje suas missas. Você deve estar pensando que eles celebram as missas dentro da igreja, certo? Errado. Eles estão celebrando no estacionamento devido ao perigo de desabamento da mesma. A basílicia está fechada e as missas suspensas, exceto a missa da sexta-feira. 

Todas as sextas, logo cedinho, os frades começam a atender a fila de gente querendo uma confissão. Fui ver ao amanhecer essa missa no estacionamento. Foi bonito ver toda aquela gente tomando a benção com o oléo de são Felix. Essa benção é uma tradição entre os capuchinhos. Trata-se de um oléo mágico que os frades passam no povo a cada sexta-feira da semana. O povo adora isto tudo, esse oléo e o sinal da cruz dos frades na testa. 

Pois bem, escrevo aqui, hoje, do mosteiro, para agradecer o acolhimento de frei Luiz de França, frei Vieira e frei Franklin, que me deram um quarto enorme, repleto de livros e computador para escrever algumas linhas bobas para você que me lê agora.

Daqui do mosteiro, então, completamente zen, desejo a você nada mais, nada além, do que Paz e Bem!   



Escrito por Gustavo de Castro às 19h55
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ENQUANTO ARIANO TOMA SOPA

Acontece que estive por esses dias no Recife para o congresso internacional do imaginário. Aproveitei para rever e abraçar amigos queridos. Bianca, Silvia, Vieira, Luis de França e Samarone Lima, meu compadre. Descubro logo que Samarone está a fazer um vídeo documentário com Ariano Suassuna e que fará algumas cenas na casa do mestre antes de uma de suas aulas espetáculo. Não me lembro agora de como o Sama conheceu o Ariano, deve ser devido ao fato de que, nestas esquinas do mundo, as pessoas iluminadas acabam mesmo se encontrando. Ficaram amigos: Ariano gostou da poesia do Sama e Sama gostou da pessoa do Ariano. Que mais é preciso? E eis que Sama inventou então, justo naquele dia, de fazer umas cenas na casa do mestre pernambucano e me convidou para ir junto. Para quem não conhece a figura, é bom que eu diga logo que o Samarone Lima é meio doido, para dizer o mínimo, não tem muita noção dos limites, por isso vai abrindo caminhos novos a cada ano. Entre choros e lágrimas, acho que o homem faz golaços de encontros felizes a cada vez.

Entendi e apreciei o convite de Sama para ir ver o mestre pernambucano. Não poderia imaginar que Sama convidaria também metade do Recife para ir junto. E eis que chegamos em dois carros, mais ou menos dez ou doze pessoas, ao mesmo tempo, na casa de Ariano Suassuna (bom, poderíamos ser, na verdade,- trezes pessoas, já que a ajudante do cinegrafista estava grávida). Entramos todos no momento em que ele saía do banho, de pijama, toalha na mão, na hora da sua sopa sagrada, às 18 horas. Sua mulher, Zélia, colocava a mesa do jantar e ficou atordoada quando viu tanta gente estranha entrando na sala de jantar, cercando sua mesa frugal. Foi logo dizendo: "porque não avisaram?". Ariano foi até o varal e pendurou sua toalha molhada, depois disse simplesmente: "Estou entendo que esse povo da Comunicação é assim mesmo. Não tiram folga nunca". E completou: "Não tiram folga porque preferem tirar o sangue da gente". E com ar jocoso colocou o dedo indicador e o anelar no pescoço, fazendo gesto de vampiro.

A casa do mestre parece um museu. Respira-se arte, sobretudo a popular, por todos os lados. Ariano mora na rua Chacon, 328, Casa Forte, em frente a casa de Miguel Arraes. O mestre estava de bom humor e parece não ter ligado muito para aquela invasão domiciliar mal coordenada. O interessante de sentir Ariano assim tão pertinho é poder perceber que a simplicidade unida à narração é mesmo o seu maior estandarte. Sua marca registrada. Ariano aproveita qualquer situação para contar uma história. Basta o mínimo estímulo e ele já dispara sua prodigiosa memória. Quantas histórias saberá contar? Sou capaz de apostar que o número é inifinito. E cada história, aposto, é melhor do que a outra.

Ouvi então, nesta noite em que as imagens do documentário iam sendo colhidas, Ariano contar que no lançamento das obras completas de João Cabral de Melo Neto, o poeta desenhou um triângulo no livro e dedicou assim: "Para Ariano, a terceira ponta do triângulo místico do sertão brasileiro". E colocou em uma ponta João Guimarães Rosa, na outra, Euclides da Cunha e na terceira o próprio Ariano. Depois de contar isso, voltou a fazer aquela expressão de menino danado, como quem diz, 'veja só, eu, que vocês todos consideram jeca e matuto, tenho isso comigo'.

É do conhecimento de todos, sobretudo da própria família, que o mestre não gosta muito que entrem no seu ateliê de trabalho, localizado atrás da cozinha de sua casa. Nem me atrevi a chegar perto. Mas fiquei espiando. Quando Ariano foi até lá e abriu a porta, pude divisar que é uma sala abarrotada de livros por todos os lados. Entre eles, deve estar lá o tal livro dedicado por João Cabral, com o triângulo místico do sertão.

Perguntei à sobrinha e afilhada de Ariano, Bebeth, e ela confirmou que ele só escreve deitado na cama. Disse que, para ele, os momentos de reserva, escritura e leitura são como presenças divinas em oratórios. Pede e exige respeito para estes momentos. Todos compreendem a devoção do mestre pernambucano pelo que há de mais sublime e profundo para ele: a cultura brasileira.

Pensando bem, João Cabral tinha razão: não dá para entender o sertão apenas com as visões de Euclides ("o nordestino é sobretudo um forte") e de Guimarães Rosa ("homem escuro, no meio do luar da lua. Lasca de breu"). Precisamos também do sorriso maroto, o herói-poeta, desajeitado e sonhador, que é esta outra face do tripé místico do sertão, representado por Ariano Suassuna.



Escrito por Gustavo de Castro às 17h33
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COISAS DO MEU RECIFE

Atravesso a poente Buarque de Macedo, sigo na mesma calçada que caminhou Augusto dos Anjos, nos seus tempos recifenses. Ele fez um poema para esta passagem sobre a ponte, referindo-se a magreza de sua sombra. Sinto não poder agora mostrar o poema. Fico devendo esta.

Em Recife, faço isto: fico zanzando pelas pontes da cidade. Conheço a Biblioteca Pública, visito seu acervo de 150 mil livros. Vejo muitos jovens carentes com sonhos vestibulares. Muita gente de cara boa. Sou recebido na Biblioteca por Graça, do setor de Aquisição, ela passeia comigo pelo imenso pavimento. Fico calado, deixo Graça falar.

Lembro de Graça enquanto atravesso a ponte Buarque de Macedo e imagino o seu dia-a-dia catalogando aquele volume de livros novos e usados. Enquanto atravesso, olho à direita e vejo a ponte Maurício de Nassau, antiga ponte do Recife, com suas imagens de Ceres, a deusa da agricultura, ladeada por outro deus que não reconheço e, logo em seguida, as imagens da Justiça e o Comércio.

Na ponte, vejo que Recife está muito mudada. Fecharam a loja do Leite Maltado, que nunca soube o nome; há vias só para ônibus na Av. Conde da Boa Vista; uma imagem do Chico Science se equilibrando sobre um tambor atrás do Paço da Alfandega, entre outros vermelhos novos em suas cores.

No aeroporto, o taxista perguntou de onde eu era. Falei: de Natal. Ele então retrucou: "Ah, é a cidade mais bonita de Pernambuco". E eu concordei imediatamente! 

Recife vai se metamorfoseando, como pode. O que gosto aqui são as histórias de revoltas, crises, insídias, conjurações políticas e religiosas. Recife é um mundo igual a Salvador. Muitos Brasis se contam daqui. Até o atual. Nas ruas, claro, só falam de política e futebol, como sempre. 

Mas minha cabeça, enquanto atravesso a ponte, Recife só me fala de poesia. Passar defronte a casa onde morou Bandeira. Sentar no banco de praça com Cabral, o bruxo. Tatear as alamedas vistas por Lispector, a clara.

Venho também à Olinda procurar Alberto da Cunha Melo e descubro, com um ano de atraso, que o poeta está morto. Morreu aos 65 anos, acompanhado pela família, no hospital. Está enterrado no cemitério de Paulista. Gosto imensamente da poesia de Cunha Melo, que só descobri recentemente por indicação de amigos. Aqui, dois poemas, de seu livro O Cão de Olhos Amarelos (Girafa, 2006):

SERTÃO CENTRAL E DE CRATÉUS

Que a poesia seja

a arte de dar nome

a todos os bois:

aos pesados novilhos

de fazendeiro - prefeito

e às duas cabrinhas

do morador submisso

e por isso chamado

de morador perfeito;

que a poesia seja

a arte de dar fome

de justiça

a todos os homens.

 

 

OS QUE FICARAM

A nós, pequenos poetas,

de canetas falhando

no meio da página,

coube-nos essa lésbica

insistência das folhas

se esfregando

entre rochas, ruínas

e destroços em cruz,

enquanto a vida

faz os grandes poetas

pegarem no caminho

nossos, já sem nome,

rascunhos de luz.

 

Alberto da Cunha Melo (1942-2007)



Escrito por Gustavo de Castro às 10h32
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