O LIVRO DO DESASSOMBRO
1.
Pois que a primeira das feiticeiras se apresentou com Sete Luas nos pés. Trazia nos cabelos os silêncios de sua geração. Olhos de lonjuras, destes que assumem devidamente profundezas e infernos; tipo esguio, indu, era daquelas que tinha a ciência de seu caminhar. Seu porte divisava os ombros das dançarinas de Tango, numa cupidez tal - numa afronta tal - de deixar qualquer orquídea envergonhada.
A feiticeira disse que, na passagem de ano, todos deveriam apagar as luzes das casas e acender uma vela. E esperar silenciosamente a passagem. Esperar um minuto ou mais. Esperar. Na passagem da meia-noite do tempo, uma vela serviria para desassombrar as angústias. O tempo, dizia ela, tinha fome de gente. Antes de iniciar qualquer coisa, deveríamos primeiro acender a nossa vela. A nossa. Depois cuidaríamos de calar instantes o ano inteiro.
2.
A feiticeira Gitana foi a segunda a chegar. Trazia um pandeiro pendurado à saia, uma rosa domesticada entre os dentes e fazia ares de amor. Sem dizer nada, começou a girar pela sala; acendeu cigarro de menta e um brilho antigo se instalou nos seus olhos. Era um brilho que arrumava horizontes. Estranhamente, depois de alguns segundos, passou a falar amenidades: que a maré alta seria às 21 horas e 15 minutos, e os peixes não davam o ar da graça semanas a fio, e os pescadores nas docas só falavam gaivotas, e assim por diante... A Gitana passou a falar a perder de vista. E a perder de voz. Disse que veio me ver por que estava com a saudade invertida, o que não acreditei, obviamente. Vocês sabem, ela trazia uma rosa entre os dentes.
Para o meu sossêgo, ambas (rosa e cigana) estavam domesticadas. Domesticadas de amor.
3.
Em terceiro lugar, nos princípios da lua crescente, chegaram dois anjos breves. Enquanto um não parava de sorrir o outro não parava de ventar.
4.
A feiticeira do norte, dama dos vinhos e das hortaliças, chegou um pouco atrasada. Trazia peso no caminho. Tinha preparado cestos de rúculas, acelgas, espinafres, coentros e alfaces, potes de mel com castanhas pesavam mais que as garrafas de manteiga e azeite. Havia também salames franceses que ela cortou diligentemente em rodelas. Mas foi o vinho que fez a alegria de todos.
Ao abrir a primeira garrafa, ela deu três vivas ao Sol e saboreou o primeiro gole como se beijasse a boca de uma criança pagã.
5.
Quem chegou por último misturava a capacidade de ser igualmente bom e mau. Um minuto antes da meia noite, transformou-se em andorinha e foi buscar a manhã no horizonte seguinte. Me disse depois que teve um trabalho danado. Voou sobre o Atlântico durante toda a noite, tomou a aurora pelo bico e a trouxe de volta. Disse que sentiu, enquanto voava, que as franjas do ano estavam carregadas de levezas diversas. Diversas.
- Aproveite, disse a andorinha, quando voei de volta, senti no bico muitas levezas. Diversas. Algumas delas me pareceram saborosas. Inteiras e completas.
Escrito por Gustavo de Castro às 20h52
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Fragmentos de Malassombro
Em Piranji meu pai inventou de construir um labirinto. Era a sua forma de nos fazer solidão.
Pediu a Raimundo, o construtor, que fizesse um labirinto todo branquinho, cheio de corredores e entradas falsas, aberturas aqui e ali, fossos, alas que não levassem a lugar nenhum, com subterrâneos, escadas, muros alternados em L, paralelos ou perpendiculares. Não sei de onde meu pai tirou esta história de labirinto, já que era semi-analfabeto. O que sei é que levou 40 anos construindo este lugar, que ainda está todo branquinho.
Hoje volto a visitar o lugar com a lembrança daquele fantasma cabeludo, curvado, "vestido" todo de branco, barba antiga, que avançou para cima de mim quando eu era criança, exatamente nestes corredores. Era o fantasma-ancião com seu cajado de cristal-estanho. Enquanto me perseguia, esbravejava: "Sou Jesus, seu estúpido, sou Javé, estou velho, desamparado e só!" Dizia isso para se achar. Não passava de fantasma-pedinte-ancião. Destes que encontramos nas ruas em qualquer noite malassombrada.
Apesar de tudo, gosto deste labirinto. Nele aprendi infâncias de solidão. Nele cultivei vasos e xaxins de manjericão, alevantes e canas-do-brejo. Nestes corredores reinventei minha solidão. A cada manhã, começava caminhando por sua face oriental, na parte da colina onde o sol não bate. Naquela parte, me detinha no salão das espadas, passava pelas coleções de butins náuticos: pedestais e bússolas, mastros, sinos-de-convés achados nestes mares. A certa altura, me perdia aqui, ali, nos flancos da torre norte, nos umbrais dos porões, nas passagens levadiças. O que parecia uma escada era na verdade um batente que iniciava sua espiral ascendente, que era logo interrompida por uma parede branca. Aproveitava e me sentava. Acendia ali um cigarro de orégano e dava dois tragos profundos.
Como se faz para deslembrar a visage do nada? Aquele velho correndo atrás de uma criança no corredor. Sei. Não importava para ele que a criança fosse eu. Aquele fantasma, hoje sei, veio até mim como quem me condena a ser como ele: torto e branco! Hoje retorno aos corredores desta prisão com a esperança de ver novamente aquele fantasma. Aguardo-o, mas ele não vem. No fundo, acho que nem os fantasmas se interessam mais em vir me assustar.
Será que o invisível ainda comove?
Agora já não sei o que foi mais perturbador na minha formação. Se ter tido infância de labirinto ou se ter aparentado com fantasmas desde cedo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Acho que ambos.
Sim, acho que posso dizer o óbvio:
Ser fantasma foi a forma que encontrei de ser labirinto. Ou será o contrário?
Escrito por Gustavo de Castro às 00h08
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