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Canto de Canarinho

Um silêncio nunca encontra outro. Cada silêncio cala diferente doutro. Senão me diz: O silêncio do olho esquerdo se parece com o do mindinho?

 

Da arte de fazer silêncio fazendo samba

Encontro o poeta triste sem talento. Tomamos rum e ele diz gostar de samba. Na noite, calamos mais do que falamos. E no que falamos, não havia poesia. Bebemos sem música e acompanhamento noite adentro. Uma felicidade estranha osquestrada de sentimentos simples. No bar também não havia muita gente. Nós e o silêncio das garrafas e dos copos. Brindamos então à falta de talento até em escolher o bar para brindar a falta de talento.

Depois o poeta falido disse a frase do Beckett: "Falhar, falhar mais vezes, falhar melhor".

Na volta para casa, um frio danado. Noite coberta de gelo calmo e passos de samba, mãos geladas, pernas bambas, casacos escuros e cigarros na boca. Depois que viramos a esquima, o dia soprava nascendo.

Soprava calmo. Depois o poeta, enfático, disse: "Sempre haverá poesia onde houver uma tristeza acompanhada".

 

 

Frei Waldermar

E morreu o meu amigo, frei Waldemar da Silva Menezes. Foi meu primeiro professor de filosofia e, com ele, no Convento, tive inesquecíveis aulas de Platão e Aristóteles. Foi um privilégio conhecer este homem, por isso escrevo um pouco sobre ele.

Como ninguém costuma escrever muito da vida desses anônimos, os frades e os monges, conto ao menos um pouco a história deste.

Frei Waldemar morreu, dia 6, acompanhado dos familiares, em Natal. Ele já passava dos 80 e estava bem doente, agora descansa em paz, acho eu.

Fazendo agora os cálculos, vejo que ele estava com 58 ou 60 quando o conheci. Na época eu não passava de um fedelho. 

Waldemar tinha três grandes amores: Nossa Senhora, os livros e a mística. Tinha uma biblioteca inacreditável assim como um senso de humildade igualmente impar.

Vivia meio só no mundo, apesar de viver em fraternidade, no Convento. Como tinha uma personalidade forte, difícil até, não fazia parte do time dos que têm pretensão de Sílvio Santos.

Era do time dos quietos. E é verdade que também adorava futebol.

Seu quarto era biblioteca-cozinha-banheiro-tudo-junto, uma bagunça completa, diria, uma ilha cercada de livros por todos os lados; atração para seminaristas novatos como eu. 

Foi com frei Waldemar que viajei pelo Sertão da Paraíba longamente... Catolé, Brejo do Cruz, Sousa, Cajazeiras, Patos, São  Bento e todo o planalto da Borborema. Conheci não só o sertão da Paraíba, mas a sua quentessência: as fiadeiras de redes, as feiras, os velhos doentes, os beatos, os açudes, o calor e a força daquele povo.

Na época, como seminarista, eu era o que acompanhava o padre nas missas e frei Waldemar era o que cruzava o sertão da Paraíba fazendo as suas rezas. Hoje gosto de lembrar das igrejinhas velhas perdidas nos sopés das serras. Devo dizer que é espantoso, Sertão afora, a quantidade de pequenas capelas. O Nordeste, às vezes, parece ter mais santo do que gente. E o povo, devoto, constrói capelinhas para todos os santos possíveis e imaginários. Santo Eleutério, Santa Luzia, São Benedito, Santa Maria, Cosme e Damião, São João, Todos os Santos, enfim, amém.

Waldemar, de certa forma foi, durante muito tempo, uma espécie de instrutor para mim. Lembro das dores de cabeça insuportáveis após as aulas de Platão e Aristóteles. Ele, por sua vez, não tomava partido. Declarava-se um aristótelico-platônico. Às vezes, dissertava longamente também sobre Tomás de Aquino a quem amava como um irmão. Waldemar era uma figura.

Foi morar no convento aos 11 anos, criança, naqueles tempos áureos da Igreja Católica. Era início do século vinte, muito antes do fatídico concílio Vaticano II (1968), quando a igreja mudou radicalmente.

Antes do Concílio, milhares de crianças Sertão afora eram arrebanhadas para os colégios internos, espécies de colégios-conventos. Conheci, em Guaramiranga, Paraíba, um desses colégios desativados. Construído na parade de uma serra, chegaram a morar juntos ali, anualmente, mais dez mil jovens nordestinos entre 10 e 17 anos. Isso entre 1900 e 1968. Foi impressionante ver aqueles salões serra abaixo imensos e vazios.

Os meninos eram entregues aos frades para serem criados. Ora fugindo da seca, ora não, esses meninos recebiam vasta educação. Frei Waldemar foi o resultado de um desses processos de educação. Depois que entrou no colégio-convento não quis mais sair. Havia nascido em Penedo, Alagoas, mas escolhera o sertão da Paraíba como destino.

Waldemar era desses homens que facilmente se rendem ao livro. Dizia que as duas piores coisas da Igreja Católica eram as freiras e os conservadores arrogantes do papado romano. Realmente, ele não era um padre comum. Gostava e desgostava do Leonardo Boff e, por conta disso, me fez ler Boff quase inteiro.

Na época, o que ele estava mesmo interessado era que eu lesse Plotino, Duns Scottus, Tomás Morus, Mestre Eckart, João da Cruz. Hoje sei, hoje entendo. Ele queria que eu lesse os místicos. 

Mas se engana quem pensa que ele era alguém sisudo. Ao contrário, era divertidíssimo.

Waldemar, quando ia benzer os defuntos, levava a água benta dentro de um frasco de Rexonna. Ficava o mais longe que podia do caixão e do defunto. O que causava estranhamento em todos. Dizia que respeitava a morte demais para chegar tão perto. Quando chegava a hora de jogar água benta no defunto, ele espirrava o frasco de Rexonna sem nenhum constrangimento. 

Uma vez, celebrando em São Bento, o teto de madeira da igreja começou a ranger como se fosse cair. Ele não pensou duas vezes e gritou no microfone: "O teto vai desabar, o teto vai cair sobre todos!!!". Foi uma gritaria geral. Depois, ele mesmo saiu correndo de batina no meio do povo para fora da igreja, com o povo atrás.

Houve uma balbúrdia histórica em São Bento. O vigário tinha saído correndo da missa. Juntaram então o prefeito, o tabelião, o presidente Câmara Municipal, Zé da Padaria e Neco da Farmácia e decidiram refazer o teto da igreja. Agora com laje pré-moldada.

O homem era mesmo dado a palhaçadas.

Certa vez, uma beata que comungava todos os dias na missa da manhã e na missa da tarde, perdeu, devido a um cochilo em casa, a celebração. Chegou esbaforida, correndo, pedindo a frei Waldemar que fosse abrir o sacrário para que ela pudesse receber o corpo de Cristo. Não  dormiria aquela noite sem a comunhão.  

Waldemar estava na sacristia, já tinha trocado de roupa e argumentava que ela comungaria no dia seguinte, na missa da manhã, não teria problemas com Jesus por conta disso. A mulher insistiu; o padre retrucou; a mulher, irredutível, não arredou o pé. Foi quando Waldemar, sem piedade, disparou:

"A senhora come tanta óstia que já deve está cagando anjo!"  

A mulher não acreditou no que ouviu. Foi embora horrorizada.

Pois é, morreu o meu amigo, frei Waldemar. Na última vez que o vi, voltou, como sempre, a fazer aquele seu gesto secreto. Em silêncio, olhava com afeto a pessoa e, discretamente, como se estivesse contando um segredo, apontava o indicador para a terra, depois, fazia o contrário, e olhava com o dedo para cima, sorrindo sem fazer barulho, como criança sapeca.



Escrito por Gustavo de Castro às 10h33
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